sexta-feira, 28 de julho de 2017
conjecturas de uma manhã fria na casa amarela
a coisa mais certa que a gente pode fazer por nós mesmas é ouvir essa voz, esse mistério interior que nos habita: alma, subjetividade, intuição, ar.
e é também a coisa mais custosa desse mundo.
porque tudo, mas tudo mesmo, nos obriga a esquecer dessa fonte, que nunca se esgota.
esse mundo quer acabar com a gente. nós, as bruxas, nós, as mulheres.
nós, corpos mutantes.
esse mundo que está aí não é feito pra funcionar. não do jeito que desejamos.
não do modo que acreditamos.
muito distante desse mundo duro, cartesiano e sintético.
do "perde e ganha" e da trapaça.
de tantos nós que nos amarram. ou acham que. (somos líquidas.)
desfazer esse tanto de emaranhado é tarefa que exige paciência de uma penélope às avessas.
nós, as desatadoras de nós. (como eu admiro essa santa.)
a santa e ou/louca que somos sempre, pra dar conta da vida.
recomeço o dia sem saber de quase nada.
a não ser que: preciso sair pra lutar.
não farei isso sozinha.
tudo passa pelo corpo.
as palavras tem poder.
sábado, 9 de janeiro de 2016
De novo mar
[Esse texto pode ser lido separado (creio que tem sentido , mas não tenho certeza...) ou em continuidade dos seguintes: Noventa dias de tormenta, Em terra, uma história, Um homem bom e Dos sonhos]
Eu só queria ver o mar. Pediu muito devagar a mulher, com os
olhos de sonho. Agora. Sim. Vamos então.
Saíram pela porta lateral, passando por um caminho de pedras
bem assentadas e cercado de verdes. Era uma estradinha que logo deu na areia
fina. No fim de uma pequena subida avistou as primeiras vagas. Foi como se uma
dor a invadisse. Soltou um longo ah...e logo reagiu tapando a boca, como se
tivesse medo de tudo recomeçar. Tonteou. Calma. Em casa de enforcado não se
fala em corda. A mulher conseguiu rir baixo e depois desatou em choro livre. A
outra a amparava, passando a mão nos seus cabelos. Vamos sente-se aqui.
Eu só queria entender porque me deixei levar tanto tempo, sabe?
O naufrágio era certo, como certos são: essa areia, céu, sol, eu e você. Eu sabia que
não devia, mas me deixei levar e levar e levar. Não se culpe. Foi o melhor
naquele momento. Não tenho tanta certeza. Agora não importa mais. O que você
viveu ninguém pode mudar. Não sabia que podia ser tão doloroso. O quê. O amor. O
amar. Amar. O mar.
Você não consegue falar das coisas de maneira comum. Sempre metafórica.
Sim é cansativo, vício de profissão. O que você fazia. Eu era atriz. No teatro.
E ficou surpresa e alegre em lembrar. Entendo melhor agora. Entende o quê. Você
está vivendo um papel. Antes fosse. Eu estava brincando. Não deixa de ter sua
razão. Eu inventei uma história de amor, parte por parte, cena por cena e
depois a interpretei. Mas o roteiro se rebelou, criou outras páginas e personagens
não previstos. O que era doçura virou ironia. O que era bonito endureceu. E
a cena se desmanchou em atuações melodramáticas. E depois trágicas. As luzes se
apagaram. Os espectadores se decepcionaram. O espetáculo ficou sem final. Acabou de
repente, como começou. Admiro sua
imaginação. Não admire. Ela só me fez sofrer ainda mais fundo. Sim, mas só ela
pode te curar. A mulher admirou a argúcia de Páscoa. Elas conviviam há tão
pouco tempo e a outra já a conhecia como pouca gente. Essa mulher deve ter
passado por coisas que nem tenho ideia. E com carinho buscou os olhos da outra,
escuros e brilhantes. Ela aquiesceu, tinha uma paz de quem superou o sofrer, era
mais experiente e mais sábia.
Ficaram quietas por um quarto de hora. O vento era forte e
inflava os vestidos estampados das mulheres. Você precisa descobrir como chegou
aqui. Eu não sei. Minha última imagem real é a de um quarto num apartamento, uma
briga, as escadas, um carro, o caminho para minha casa e. Branco, branco, branco. Depois
mar, mar, mar.
E o nome. Não me lembro. E como quer ser chamada. Bárbara.
Gosto desse nome. Eu também. Quer voltar. Deixe-me olhar com calma para ele.
Olhe o quanto quiser. Vou fumar um cigarro. Ah, eu gosto de cigarros. Sim. Quer
um. Fumamos juntas. Pode ser. Umas baforadas e já me sentirei uma mulher nova.
Riram-se.
domingo, 16 de agosto de 2015
De pássaros e gatos
A minha história com gatos
começou bem cedo, nas férias encantadas da casa da minha avó, em Conquista, Triângulo Mineiro, com gatos branquinhos e angorás. Bichanos, chaninhos.
Depois eu, menina de apartamento,
quase não pude tê-los. A não ser um, que pulou da mangueira da casa vizinha
para nossa área de serviço, e que eu carreguei no colo por uns dias, até que
fugisse de novo. A minha tendência aos problemas respiratórios, desde muito
novinha, tornava proibitiva a convivência. Mesmo assim segui adorando gatos.
Já casada, morando em uma casa
grande tivemos alguns, mas não eram criados dentro. De uma hora para outra, essas pessoas que odeiam animais jogavam “bola” pra eles, suspeitávamos da
vizinha. Sumiam.
Lembro-me também de uma gata que
pariu em casa um gatinho cego. Cuidei dele com mamadeira, mas um dia
amanheceu esticado. Uma outra ainda me doeu mais. Chamava-se Mia, presente de
um amigo do teatro. Era alaranjada e seus olhos enormes e doces. Sumiu por uns
dias e comecei a ficar preocupada. Perguntei aos meus onde será que ela estava
e então não puderam mais esconder. Foi a filha que contou: encontraram a gata
morta e enterraram no fundo do quintal, naquele dia mesmo do churrasco de
família, reuniões que aconteciam em muitos domingos na casa antiga. Eu nem
percebi nada, ficaram com dó de me contar. Eu chorei, sou chorona e gostava
dela.
Na casa amarela tive gatos que
perambulavam durante a obra e que até hoje vêm aqui. E a chegada de Riva, de
quem já contei. É uma companhia para a solidão. Esses dias foi castrado e
provocou uma crise em mim. Tenho esse direito? Ainda tive a ninhada de gatinhos
deixados igualmente no quintal, quatro. Deram trabalho, mas acharam donos que
até hoje me agradecem. E Branquinha que foi deixada nos fundos da casa, com olhos
assustados e muita fome. Um amigo ficou com ela, acho que mais pra me ajudar.
Ganhou um colar de strass e lugar macio pra dormir. Tenho notícias de que é
muita arisca e quebra coisas à noite. Gatos.
De pássaros presos nunca gostei,
mas o primeiro foi um canarinho. Uma amiga não tinha com quem deixar quando
viajou e ele ficou na minha casa. Juquinha. Aprendei a cuidar dele. Cantava
muito à tardinha. Bichos são bons para quem gosta de falar sozinha como eu.
Rendem boas conversas. Quando me casei ele ficou em casa da minha mãe. Morreu
de velhice? Acho que sim.
Quando morei num apartamento, ao chegar
do Acre, onde trabalhei, encontrei um ninho de sabiá na janela do banheiro.
Foram dias de estranha e curiosa convivência. Eram três filhotes e a mãe. Eles cresceram
ali, colados ao vidro opaco e me alentaram naqueles dias sombrios. Com metáforas,
por favor. Uma manhã já não estavam.
Um dia nessa casa de teto alto
entrou um passarim, bem pequeno. Fiz de tudo para que saísse, mas ele não
conseguia. Ficou, passou a noite, dando pequenos saltinhos sobre a cama onde
estava e depois dormiu em cima de um quadro. Quando abri a porta do quarto de
manhã, ele estava lá, piando baixinho. Ficou
voando pela casa até que arranjei um jeito arriscado para que saísse. Fechei
tudo e deixei apenas uma fresta na janela de guilhotina. Então fui soltando
lentamente, até que ele entendeu e voou.
Ontem estava trabalhando quando ouvi
sons que misturavam miados e pios. Custei a entender que Riva tinha caçado um
pássaro, que lutava para se soltar, na cozinha. Foi um desespero. Corri em direção a eles, toquei pra fora. Queria
que ele soltasse o pássaro, mas não sabia se já estava muito machucado, se adiantaria alguma coisa. Então queria que ele saísse e
terminasse aquilo longe de mim. Ele fugiu para o meu quarto, debaixo da cama. Fiquei
mais nervosa. Gritei. Até que o pássaro se soltou. E estava vivo. Instantes de alegria e alívio. Toquei Riva
do quarto, maldizendo seus instintos. Tranquei a porta. Respirando pensei um pouco no que fazer. Voltei lá e vi que
ele parecia bem, mas estava mancando um pouco e tinha perdido todas as penas do
rabo. Não conseguiria voar. Precisava de um tempo. Fui à loja de bichos e
comprei uma gaiola e alpiste. Pedi ajuda a um amigo, o mesmo que levou Branquinha. Colocamos o pássaro dentro da gaiola. Era um pardal? Ele ficou
quieto, muito quieto. Pendurei a gaiola na tesoura do telhado. Então saí para
trabalhar. Riva só me olhando, sabendo que desaprovara aquilo.
Fui com a sensação de que o
pássaro não sobreviveria. Ao voltar, à noite, observei que ele estava na mesma
posição. Aperto no peito. Mais um que vinha se somar aos outros que me
assaltam. Sempre à noite. Evitei pensar. Amanhã, amanhã eu resolvo isso.
Logo cedo já sabia que tinha
morrido. Procurei minha enxada, abri uma pequena cova. Perto de uma roseira.
Abri a gaiola, nas mãos um pedaço de pano velho, resto de um pijama. Aquele
serzinho, tão leve. Por isso voam. Ajeitei o pano, enrolei, tampando o bico longo. Pardais
tem bicos assim? Acariciei-o um pouco e rezei, antes de deixar o corpo no fundo
da covinha. Era a primeira vez que enterrava um passarinho. Puxei a terra com
as mãos, pouca. Depois por cima coloquei uns tijolos. Da porta da sala Riva
olhava, sem ter coragem de se aproximar.
Pássaros e gatos. De tudo fiquei pensando: na natureza dos
bichos. Na nossa natureza.
segunda-feira, 10 de agosto de 2015
Dos sonhos
Logo depois de admitir que não se
lembrava de seu nome, a mulher entrou em estado de silêncio. Não conseguiu
dizer palavra. Mesmo o café com pão e manteiga, tão saboroso e nostálgico,
arrancou dela qualquer som.
Recolhida ao quarto estava agora.
Os olhos vazios, nem chorar mais conseguia. O rio de seus olhos secara. Sabia
que precisava de um novo plano. “Preciso comer, preciso remar, preciso dormir,
preciso chegar, preciso viver...” Assim atravessou a tormenta. Agora eram
outras as necessidades. Estava sentada numa cadeira confortável que ficava
perto da janela do quarto. Só então reparou que era uma suíte. Aquela porta à
esquerda devia ser o banheiro. Caminhou até ele, abriu a porta e se deslumbrou
com uma pequena banheira. Acreditou que um banho poderia fazer bem. Há quanto
tempo não tomava um? Ela que gostava de chorar debaixo do chuveiro, deixando as
lágrimas se misturarem ao jato morno. Ela que cantava de alegria ou de
tristeza. Ela que... Despiu-se e viu seu corpo no espelho. Estava magro, os
seios mais murchos, os pelos crescidos. Temperou a água e deixou que
escorresse, enchendo a banheira. Entrou e deitou-se, molhando também os
cabelos. Fechou os olhos, a sensação de água limpa e quente derreteu sua
dureza, soltou pequenos ais. Queria ficar ali dias e dias, queria se liquefazer
e depois ir pelo ralo, queria sumir. Só isso. Chega. Para. Reage. (Sempre
aquela outra, do lado de lá, dando ordens, empurrando-a pra frente). Fez espuma
com um sabão de ervas, esfregou-se, com vigor. Tirar a pele morta. Depois
enxaguou-se usando a ducha. Puxou a toalha que estava na parede. Enrolou-se e
saiu. O espelho agora embaçado não registrou a nova mulher. Mais
leve, recendendo a sabonete. Fez um turbante com a toalha menor, adorava
turbantes. E acreditava no poder deles. Foi enxugar-se no quarto. Queria agora
era ter um vestido limpo e novo para usar. Em cima da cama ele estava. Era azul-esverdeado
com ramagens rosadas na barra. Decotado como gostava. Do lado, roupas de baixo
brancas, calcinhas e um sutiã. Tudo ali parecia tão improvável, a mulher nem
questionou. Como uma menina obediente trocou-se. A roupa ficou um pouco larga,
mas agradou-lhe as cores e a textura, crepe. Voltou ao banheiro, penteou os
cabelos que davam pelos ombros. Alegrou-se com o que viu. Quem ela era? Marina.
Ana. Bárbara. Clarice. Selma. Inês. Beatriz. Nina. Maria. Preciso entender,
preciso lembrar, preciso voltar, preciso recomeçar. Preciso lembrar, preciso
recomeçar, preciso lembrar. Preciso voltar, preciso recomeçar, preciso entender.
Sabia já do que precisava. Decidida a sair e investigar quem era, assustou-se com
uma batida na porta. Quem é. Você não me conhece. Você não me conhece. Então
empatamos. Riram-se as duas. E abriu-se a porta.
A mulher era negra, muito alta e
tinha um sorriso franco no rosto. Abraçou-a com força. O vestido caiu bem,
ficou bonita. Obrigada. Como você sabia o tamanho. Vi você no café da manhã. Ah. Trabalho aqui há muito anos. O que faz. Massagens terapêuticas, aromaterapia,
reiki. Como se chama. Páscoa. O nome ressoou. Páscoa. Era um nome pouco comum.
Mas a si era comum. Páscoa. Belo nome. Sim gosto muito dele. Venha comigo. Vou
te oferecer meus serviços. Agora. Sim.
Ia saindo descalça, mas do lado
da cama havia umas sandálias rasteiras de couro. Calçou-as, ficaram exatas. Apenas sorriu pra mulher. Meus pés são
grandes. Os meus também. E riram de novo. Há quanto tempo não se ria. Nem sabia
mais.
Atravessaram o mesmo salão de
cedo e saíram pelos jardins. A direita uma sala grande, toda de vidros e
cortinas. A mulher abriu a porta convidou-a a entrar. O lugar cheirava a
incenso e tinha luzes artificiais. Uma música suave e repetitiva ao fundo. Deite-se
aqui. A mulher obedeceu. Então Páscoa começou a aplicar-lhe a impostura das
mãos, nos chacras. Sentia o calor de cada parte, todo o seu corpo em paz. Quase
adormeceu, mantendo um estado de transe e relaxamento. Depois ouviu o pedido,
dito em voz baixa e pausada: Agora quero que me conte seus sonhos.
A chave. A porta da memória se
abriu. Ela desatou a fala, mas era calma e profunda.
“Quando ele foi embora chorei
muitas noites. Minha cama virou um barco/mar. Naufraguei. Lutei para não
sucumbir. Não sonhava nada. Dias de olhos abertos. Medo de afogar. Medo de
saber. Quando comecei a sonhar parecia real. Era como as mil e uma noites, um sonho
dentro do outro.
Nas primeiras noites sonhei que
nosso amor era uma árvore. Sozinha não podia mais regar aquele arbusto. E então
esquentei óleo de cozinha e joguei nas suas raízes para que secasse. Ela
permanecia firme e não vergava. No dia seguinte estava com uma flor para mim. E
o ritual se repetia, tantas vezes, tantas noites. Queria que aquilo acabasse. Numa
manhã, achei um rastro. Era seiva, tinha escorrido para longe.
Nas segundas noites sonhei que
nosso amor era um gato. Sozinha não podia mais alimentar aquele bicho. E então
comprei veneno de ratos e coloquei na sua comida para que morresse. Ele comia
tudo, devolvia, mas sobrevivia. No dia
seguinte estava com um ronronar para mim. E o ritual se repetia, outras vezes,
outras noites. Tudo parecia insano. Numa manhã, achei uma escama. Era peixe,
tinha nadado para longe.”
Nas terceiras noites sonhei que
nosso amor era uma criança de colo. Sozinha não podia mais criar aquele bebê. E
então cravei minhas unhas em seu pescoço, para que não vivesse. Ele me olhava sem entender,
mas não chorava. No dia seguinte estava com um sorriso para mim. E o ritual se
repetia, noites sem fim. Era triste matar o amor. Numa manhã achei uma pena. Era
pássaro, tinha voado para longe.
Três vezes matado, três vezes
morrido, três vezes acabado.”
Assim terminou a mulher. E abriu os olhos
saindo do estado de sono.
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sábado, 25 de julho de 2015
Um homem bom
( Esse texto pode ser lido separadamente ou em sequência de dois outros: Noventa dias de tormenta - 19/10/2014 e Em terra, uma história - 23/11/2014)
Aproximando-se das luzes, a primeira casa que viu era azul. Com muitas janelas e uma porta grande. Na lateral tinha uma varanda e, numa rede, alguém fumava. Caminhou com firmeza naquela direção. Abriu uma portinhola de madeira, numa cerca baixa que circundava a área, tudo muito caprichado. Parecia uma pousada. Era.
O homem se assustou com seu
vulto. Levantou-se da rede, jogando na areia o resto de cigarro, uma cigarrilha
de aroma adocicado, que lembrava canela. O que é isso minha senhora. Vai entrando assim sem nem bater. Desculpa eu não
queria incomodar é que. Quem é a senhora. Eu sobrevivi a um naufrágio, naveguei sem rumo durante não sei quantos dias. Meu deus. Eu preciso de.
A mulher desfaleceu antes de
terminar a frase. A emoção de falar com uma pessoa depois de tanto tempo, a
fome, a sede, a exaustão, foram razões mais do que suficientes, para que viesse
ao chão com todo o seu pouco peso. Emagrecera mais de 10 quilos.
Acordou numa cama patente,
parecida com a que herdara da sua avó, quando solteira e que depois ficou para
o filho mais velho. Filho, cama, avó, casa. Novas imagens vieram. Os lençóis
tinham uma estampa de flores rosadas. Por cima uma coberta tecida com fios
coloridos, dessas que as pessoas vendem no litoral. Dois travesseiros apoiavam
seu tronco. Era bom e macio. Um pequeno abajur laranja deixava o quarto pequeno
cheio de luz delicada. Do lado da cama um pequeno caixote antigo. Uma moringa,
um copo. Virou e serviu-se de água. Tomou com sofreguidão, dois copos. No mar a água que recolhia era suja e
salobra. Água de chuva, misturada com a maresia, bebida em pequenos goles. Tudo
era feito com parcimônia. Não sabia se sobreviveria, mas sua dureza de cabra
ensinou-lhe a viver aquela adversidade com economia.
Não tinha ideia da hora. Pelo
friozinho e silêncio devia ser madrugada alta. Olhou suas mãos, seu corpo.
Estava limpo. Mas não se lembrava de ter tomado banho. Lembrava-se de ter visto
a casa, entrado no terreno e então tudo escureceu. Fechados os olhos, na pele
sentia uma tolha molhada e morna, como se dela fora o corpo de Diadorim morto,
sendo limpo pela mulher do Hermógenes. Sim, alguém limpara seu corpo magro e
sujo antes de meter-lhe em lençóis alvos. Vestia uma camisola de algodão longa.
Sem roupas de baixo. Estremeceu levemente ao pensar que pudesse ser o homem.
Ele tinha um leve sotaque, era um estrangeiro. As cãs embranquecidas, o cabelo
farto e ainda escuro. Tinha um rosto duro e uma voz que ficava no ar. Então ela
lembrou-se de. Fechou os olhos com força para não ver aquela imagem. Funcionou. Eu
vou dormir um pouco mais, pensou. Virou-se para o lado esquerdo e cobriu-se até
a cabeça. Pegou no sono novamente. Os sonhos vieram. Ela peixe, dentro de um
rio esverdeado, os cabelos longos e louros, como Ofélia. Mas não estava morta,
nadava entre outros seres e flores, ramagens. Corpo deslizante na água doce,
depois de tanto sal.
Acordou com sons cotidianos. A
cozinha ficava perto, ouviu vozes de mulheres, barulhos de louça, talheres.
Cheiro de café. Café. Café. Seu cheiro sedutor ergueu o corpo da mulher, que
num átimo já estava abrindo a porta, passando por um pequeno corredor e
chegando ao salão. Alguns hóspedes estavam por ali. Olharam-na com olhos
curiosos. A mulher náufraga. A louca do mar. A sereia cansada, diziam baixo.
Nem deu ouvidos. Continuou caminhando, descalça. O aroma inconfundível e a promessa
de comida foram conduzindo aquela mulher de olhos vagos, cor de mel, os cabelos
presos numa fita encarnada, para a varanda que ficava nos fundos da casa,
cercada de verdes, o terreiro banhado de sol. Sentou-se à mesa pequena, de duas cadeiras.
Era o lugar mais afastado, num canto. Qualquer esforço, depois de tanto tempo
em privação, parecia enorme. Ficou
respirando, cobriu o rosto com as mãos, hábito antigo. Por alguns
minutos permaneceu quieta, juntando forças. Quando saiu daquela suspensão, deu
com os olhos dele olhando pra ela. Era fundo aquele olhar. Mas tinha uma
suavidade, uma vontade de compreender. Mesmo assim ela, bicho assustado, fez um
movimento pra se levantar. Ele segurou seu braço com firmeza. Fica. Você
precisa comer um pouco. Ela aceitou a quase ordem dele, a voz era macia. Voz de homem bom, pensou. Vou pedir pra prepararem um mingau para você. Eu
quero café e pão com manteiga. Ele riu. Está bem. Foi buscar.
Ele preparou o pão de sal, serviu
o café numa caneca de louça e trouxe. Pronto, aqui está seu desejo. Ela
sorriu e começou a comer, meio sem jeito,
os farelos caindo no colo. Depois tomou um grande gole do café sem açúcar, forte. Os olhos
grudados naquele pequeno banquete. Não sei ainda seu nome. Ela fez uma pausa
longa. Nem eu, respondeu. E veio um silêncio.
domingo, 31 de maio de 2015
Dia de.
Fazer o domingo de novo é arrancar a pele pra que a carne viva.
Cavucar a terra até que a mãe sangre.
Bater no peito pra lembrar da dor.
Espatifar os vidros das garrafas solitárias, no fundo da casa.
Deixar o choro de misturar ao solo, regar o mato. Esse que cresce. Sempre.
Beber a água suja da bacia-mar.
Com paciência fazer o barquinho de papel, como se fosse brincar.
É se ver no espelho ainda forte.
Preparar a broa e esperar seu perfume.
Incensar a casa cantando.
Cuidar das roupas e das pequenas lembranças para que nada falte.
E virar a Dona Doida. A que mistura Tristeza com Alegria.
E lembrar da doce Cora e suas roseiras.
E chamar Clarice puxando o traço do delineador.
Trazer Frida para a mesa do I Ching.
Lembrar das mulheres da minha ancestralidade.
Evocar minha doce avó Páscoa. Esperar meu duplo: a mulher xamã. Receber a garota de cabelos curtos, suave. E a moça das tatuagens que me enigmam. Companheiras.
De extremos faço meu domingo.
De delicadezas e pequenas violências.
De ar e fogo. Quente e frio. Coturnos e pés descalços.
Que seja mais um dia do resto de nossas vidas, ainda que a vida não tenha necessariamente um resto.
domingo, 10 de maio de 2015
Das mães
Hoje eu falo das
mães. Da mãe do Francisco, da mãe do Lucas, da mãe da Joana, da mãe da
Consuelo, da mãe da Carmen, da mãe da Sílvia, da mãe do Paulo, da mãe do Tomaz,
da mãe do Gustavo, da mãe do Rafael, da mãe da Izabel, da mãe da Thaís, da mãe
da Natália, da mãe da Fernanda, da mãe do Léo, da mãe do João, da mãe do
Arthur, da mãe da Cely, da mãe da Maria Luiza, da mãe da Luna. De todas.
Das mães que
amamentam, das que criam seus filhos sozinhas, das que tem ao seu lado um
pai, das que os amam, das que os
rejeitam, das que batem nos filhos, das que os protegem. De todas.
Falo das mães
que planejaram ter seus filhos, das que fizeram inseminação artificial, das que
os tiveram por descuido, das que os tiveram por tesão, das que os tiveram por
amor, das que os adotaram, das que os abortaram. De todas.
Das que fizeram
das tripas coração, das que tiveram seus peitos inflamados, das que fizeram
cesárea, das que pariram de cócoras, das que morreram de parto. De todas.
Falo das que
criam seus filhos entre lençóis de linho e babás, das que os criam nos trapos,
ao léu, das que deram a eles leite nan,
das que fizeram papinhas, das que compraram os
potes na farmácia. De todas.
Das que lavaram
as fraldas de pano, das que procuraram as descartáveis mais baratas, das que
usam só o modelo mais avançado. De todas.
Das que os
levaram ao médico de madrugada, das que perderam noites de sono, das que
tiveram medo de perdê-los, das que os perderam. De todas.
Das
desnaturadas, das dedicadas, das cansadas, das displicentes, das castradoras,
das compreensivas, das enlouquecidas, das amorosas, das adolescentes, das
temporãs, das insones, das insanas, das matronas, das edipianas, das novatas,
das experientes.
Todas as mães do
mundo merecem ser felizes. Todas.
Que sua função
não seja considerada natural, mas uma escolha, uma conquista, uma benção.
Que ser mãe seja
um direito e não uma imposição da sociedade, que seja um exercício pleno e
feliz: compartilhar a vida, o peito, o afago, a convivência.
É isso que
desejo a todos nós. Alegria mesmo na adversidade.
Feliz todo dia
das mães.
ps: esse texto foi postado anteriormente no blog "Solteiras e descoladas".Peço licença...
domingo, 12 de abril de 2015
Sábado
Saiu do Maletta pisando firme,
com sua calça jeans com cara de anos 70, botas usadas e uma camiseta molenga de
listras azuis, navy, roubada da
filha. Uns copos da velha Heineken deixaram-na leve, assim como a conversa
divertida com amigos, no meio do burburinho da rapaziada, artistas e malucos de
sempre. Aquele lugar era antigo e as pessoas pareciam as mesmas. Era como se
tivesse 20 anos e muita esperança na vida. Os poros abertos e prontos pra viver
tudo com intensidade. Ah...aquela sensação de vertigem diante de tudo. (Podiam
vender em frascos. Com uma respiração teria tudo de volta.)
Andando pela Avenida Augusto de
Lima, seus 55 anos voltaram, mas de outro jeito. Tinha mais coragem. Seus
ombros caídos se aprumavam. Acabou? Parece que aquela mágoa se dissipava, enfim.
Aquele incômodo no estômago. Acho que sim, agora sim. Como a vida podia ser plena
de novo.
Bom estar em cartaz num teatro no
centro da cidade, um pouco de luxo, “por deus, que eu também preciso”, diria Clarice. Depois um bar, bebida, riso. Um pouco de comemoração. Andava carente de celebrar. Bebia pouco,
não comia mais carne, não fumava. E não tinha companhia. Se é que me entendem. Sem
príncipes ou sapos seguia. As noites eram longas, às vezes insones. Mas hoje
era tudo diferente. Era? Ou apenas queria que fosse?
Pegou o primeiro ônibus. Teria
que baldear no bairro. Na viagem pensou que há mais de 30 anos fazia aquele
trajeto. Quase sempre no transporte público. Ruim. Demorado. Cheio. Conseguiu
se sentar e veio observando as ruas. Tudo mudou pouco. O progresso chegou, mas
nem por isso o caminho ficou mais curto. Cada vez parecia mais demorado chegar.
Desceu no Esquinão. O nome permanecera, mas nem existia mais o lugar de sanduíches, perto da sua
casa antiga. Lembrou que ela ficava na rua de trás. Teve vontade de atravessar, virar a esquina à direita e bater. Pra conversar, sei lá... A solidão não é boa conselheira. Ou é?
Ficou no ponto. Quinze minutos
foram suficientes para que desatasse a chorar. Do nada. De novo. Era dona Alegria
ou Tristeza batendo? As duas, juntas. Chorou sem vergonha dos que a observavam.
“Eu gosto de chorar, eu preciso....” Entendeu que ficar parada não lhe fazia
bem. O I Ching já aconselhava, a terapeuta também. Manter a pulsação.
Recomeçou a andar. Seriam dez
quarteirões até a casa amarela. Acelerou o passo. O frio do outono entrou pelas
suas narinas. Chegou aos pulmões. Ar fresco. Respira, respira. Fechou o moleton
encarnado. Passou a mãos nos cabelos, louros e brancos. Começou a sorrir de
novo. Até que sua vida era boa. Era sim. Em casa um gato a esperava.
domingo, 5 de abril de 2015
Domingo de "Páscoa"
Já fiz “quaresma” muitos anos.
Ficava sem comer carne e sem tomar cerveja, que na época gostava mais, por quarenta longos dias. Ia à igreja, assistia comovida a encenação da paixão, acompanhava
a procissão que passava em frente da minha casa. Era bom ouvir os sinos bem
cedinho, o céu ainda escuro e a cantoria. Muitas vezes levei as crianças e fomos percorrendo as ruas do
bairro, cobertas de serragem, em tapetes bem singelos. Depois havia missa na
Igreja de Santo Antônio da Vila Belém. Na volta passava na padaria, comprava pão e levava pra tomar
café em casa. A alma agradecida e mais leve, depois de tanto sofrimento.
Um belo dia, depois de tantos trancos, pensei: não quero
mais fazer isso. Acho que nas minhas preces pedia coisas erradas, coisas que estavam fora
de mim. Pensando no meu caminho espiritual vejo que desde que tive filhos voltei a ter vontade de rezar. De agradecer o
mistério da vida. De encontrar meu caminho para o divino. Mas de uma hora pra outra a religião recebida da família
ficou insuficiente. E a cada dia busco outras fontes, outras crenças. “Reza é que
sara da loucura”, “religião bebo de todas”...penso como Riobaldo Tatarana, jagunço
no sertão de Rosa.
Mas na minha casa tenho um pequeno
altar com imagens de Nossa Senhora Aparecida, a madrinha. E da Nossa Senhora Desatadora
dos Nós. Quero ter um pequeno Buda também. Perto das conchas e cristais. O altar
é inspirado em minha avó, Páscoa. A delicadeza em pessoa. Anjo da guarda que me
protege pelas sendas dessa estrada. Seu altar tinha sempre rosas, colhidas do jardim. Ainda terei. Em sua
homenagem no domingo de hoje mantemos a tradição: fazemos um lanche, reunindo a
família. (das datas católicas, que ainda me afetam, é minha preferida). Cada um prepara algo, como ela fazia. E celebramos
juntos a ressurreição.
A nossa.
Feliz Páscoa!
domingo, 8 de março de 2015
Clarice e Beatriz
Clarice era
aquela tia que ensinava tudo que não podia. Falar gíria e palavrão. Inventar
coisas em horas diferentes. Comer bobagens.
Era a tia que levava mil sobrinhos ao cinema e deixava a gente
assistir duas sessões. Não posso me esquecer da histeria coletiva em “Roberto Carlos e o Diamante cor de rosa”, no enorme
Cine Palladium.
Era a tia que fumava cigarros Capri. Chiquérrimos. Depois
Holywood, que aprendi a roubar pra fumar no quintal da casa da minha avó. Acho
que com uns dez, onze anos.
Tia Clarice era aquela tia que morava em São Paulo, onde eu
e minha irmã íamos passear sem os pais. E que aparecia de surpresa, no fusca da
família.
Tia Clarice era a tia que um dia se desquitou, coisa rara
pra época, ficou uns meses lá em casa até a vida se ajeitar de novo e depois
buscou as crianças, duas.
Nesse tempo, já adolescente, ficava horas escutando suas
histórias. O mundo dos adultos chegou cedo em minha vida. Eles me fascinavam.
Quando se mudou pro mesmo prédio da minha mãe a gente jogava
“buraco” até tarde da noite, fumando que nem umas chaminés.
Depois quando tinha já um filho pra criar morei com ela,
marido e meus primos, Cristina e André, em seu apartamento, até a minha casa
ficar pronta.
A vida foi afastando a gente, nem sempre consegui voltar a
ter com ela aquela intimidade boa da infância, adolescência e primeiros anos
como adulta. Mas ela sempre foi além de tia amada, a madrinha, uma fada
madrinha. Dessas que a gente tem na vida pra nos proteger. Nunca vou esquecer
sua risada. Alta, gostosa, livre.
Beatriz era a tia
artista. Linda, dona de uns olhos azuis esverdeados e uma voz de soprano.
Poderia ter sido uma diva da ópera. Foi professora e dona de casa, como todas
nós. Tocava piano. Vivia com um bom humor incrível.
Era a tia que nos presenteava com mimos fora de época e que
fazia campanha para os meus cabelos ficarem longos.
Nunca vou me esquecer de uma viagem ao interior, à velha
casa de minha avó. Eu, já uma moça de 21 anos, fui tomando conta de meus irmãos
junto com ela e seus filhos. Toda manhã ela acordava e fazia uma saudação ao sol,
cantando uma letra inventada, naquele quintal mítico, de tantas lembranças.
Perto da pitangueira.
Depois tomávamos café, ela sempre de regime, comia biscoitos
água e sal com leite desnatado. À noite me chamava no quarto e perguntava,
cândida: Quer um bombom? E abria a caixa de bombons de licor, enrolados em
papel encarnado.
Tivemos juntas uma experiência artística. Ela musicou e
interpretou um poema de minha mãe, em homenagem à Bárbara Heliodora. Eu dirigi.
Ensaiávamos na casa da professora, foi um momento bom. Ela cantava, soltava sua
voz aguda. Até no Teatrinho de Sabará nos apresentamos.
Novamente a vida nos afastou. A vida adulta tem esse lado
duro de nos tirar do convívio com seres tão queridos. Em nome do tempo, da
eficiência, do trabalho, do nosso egoísmo e sei lá mais o quê.
Mas ela sempre foi uma inspiração, uma fonte de energia e de
alegria. Uma tia querida, que nos mostrava meios de burlar o cotidiano. De ser
feliz.
Clarice foi primeiro. Há uns três anos. Depois chamou
Beatriz. Que partiu há menos de uma semana. Imagino o tanto de risadas que estão dando
lá em cima.
Um beijo, minhas queridas tias.
domingo, 1 de março de 2015
Preparação
Ontem dormi antes das dez, com o
gato nos pés da cama. Isso tornou o sono leve, com medo de machucar o bichano, pequeno companheiro nessa aventura de fazer da casa amarela um palco.
Acordei cedo, na ansiedade de ver
tudo logo arrumado, a dona de casa eficiente e rápida me invade. Calma, digo
pra mim mesma. Aos poucos vou conseguindo domá-la. Tomo café mais reforçado,
nesses dias nem consigo almoçar, preciso estar faminta. Parece que inversamente
é o estômago vazio que garante a energia, o chacra solar é o mais ativado.
Domingo é um corpo em ação e reação. Um corpo queimando. Acendo um incenso e
rezo no pequeno altar. Nenhum pedido hoje. Pedi tanto nos dias anteriores. Reza
que sara da loucura, já diria mestre Rosa. Acredito. Mas hoje só agradeço. Recebi
muito.
Vou à rua comprar coisas que
faltam para o preparo dos alimentos. Broa de fubá com goiabada e pão de queijo.
Com o ar fresco no rosto, observo o domingo de cada um no caminho. Dia mais lento,
mais leve?
Depois varro o passeio em frente
ao quintal e toda a casa. Passo pano em cada cômodo, gosto de arrumar onde
habito. Ajuda a organizar meu caos interior. Quero que as pessoas gostem daqui,
se sintam acolhidas.
Aplaino a terra, lavo os vidros, escolho
um pedaço de carvão, deixo perto do muro. Encho a bacia de água. Separo o papel
do barquinho. Coloco os vestidos no lugar.
Na cozinha começo a fazer as
comidas. Penso, penso, penso. Como gostaria de meditar por horas e não precisar
“pensar”. Mas penso. A diferença é que agora existe uma calmaria. Um
compreender. Um olhar mais generoso comigo. Tudo isso é fruto da solidão dos
domingos e desse Domingo que hoje se abre para outros.
Já me sinto feliz por ter
conseguido. Junto com a Denise, amiga essencial. Ela está comigo em cena. E
tantas outras mulheres. Familiares, parceiros e amigos acarinham, escrevem,
apoiam. Tocar as pessoas fortalece, impulsiona. Repenso a arte, o teatro que
faço há tantos anos. Que bom ter conseguido não desistir. Tudo que vier agora é
soma. É vida nova em seu fluxo infinito e belo.
Lembro-me do conselho de Hamlet
aos atores: “Ide preparar-vos”.
É o que faço agora.
O resto é medo e coragem.
Bom domingo.
domingo, 15 de fevereiro de 2015
Mas é carnaval
Esse ano decidi ficar fora da
folia. Nos últimos tempos essa data foi sempre intensa para mim, repleta de
momentos que combinavam com a alegria e euforia do carnaval. Dias felizes,
embebidos na mais pura ilusão. Desde a decisão de “sair do armário” aquela
tarde distante em Santa Tereza, passamos por muitas fantasias, brilhamos, brincamos,
até nos pintarmos com as cores do pavão de Krishna, no ano passado: “No
carnaval te conheci/ transcendental te segui...” Foram bonitos aqueles dias de
chuva, suor e cerveja pelas ruas e praças. O carnaval crescendo, o amor crescendo,
as ruas se enchendo e a gente vendo tudo aquilo, com um orgulho e uma esperança
enormes na cidade, nas pessoas e em nós mesmos. Minha carne sempre foi de
carnaval.
Agora que a paixão maior se foi (sei
que um dia vai voltar mas demora tempo) recolho-me à solidão da minha casa em
companhia de minha mãe. Longos silêncios e reflexões sobre a vida. Sobre o
amor. Sobre viver sozinha. “Você não tem medo de ficar aqui sem ninguém?”
Respondo como Diadorim: “Costumo não.” Mas por dentro sei que às vezes tenho
medo sim. De mim.
De longe vejo a alegria dos
outros pulsando na tela. Já é carnaval. Sorridentes, coloridos, desafiantes.
Vem? Vou não. Hoje não. Antes preciso me curar da ressaca do último baile. Confesso
que exagerei.
E permaneço firme na minha
decisão. Até que escutei minha mãe chateada dizer: “Só porque tenho quase 85
anos ninguém quer me levar ao carnaval.” Aquilo ecoou em mim. Envelhecer tem
sido uma questão que me toca todos os dias. “Talvez a gente consiga alguma
coisa aqui no Serrano, mãe. Eu te levo.” Mas falo sem acreditar muito. E então fico
sabendo que aqui no bairro, bem pertinho da gente, a querida Rose, minha amiga
e parceira de vida e luta, fundou o Bloco das Primas. E que vai ter cortejo
pelas ruas do bairro. Ah...Rose! Só você mesmo pra me fazer mudar de ideia,
ainda que com o coração sujo de confetes e serpentinas antigas.
Domingo cedo saio em busca de um
turbante, coloco uma saia estampada, arrumo uns colares pra minha parceira,
pintamos o rosto e lá vamos nós. No caminho esboço um sorriso, respiro fundo e
lembro-me do meu pai cantando pra mim, há muito, muito tempo atrás: Loirinha,
loirinha / Dos olhos claros de cristal...
Resta uma esperança. Outros carnavais
virão. Mesmo triste aceito o convite do moço que passa: vamos brincar?
domingo, 8 de fevereiro de 2015
sem poesia
Saiu da terapia exultante. Desceu a Avenida da Zona Sul com um andar seguro. Agora já era. Depois de longos meses. Marcados no calendário. Uma semana dormindo nor-mal-men-te. Sem pensar neles. Nele. Nela. Isso significava muito. Muito.
Aliviada resolveu sentar-se e tomar café na padaria fina, que custava os olhos da cara.( A vida dos ricos é boa.) Sorveu o expresso com gosto, pensou em como seria dali pra frente, anotou coisas numa caderneta. "Hoje dia 7 de fevereiro encerro mais um ciclo. Uma vida nova me espera e estou ansiosa por vivê-la. Que venha." (Era um pouco dramática, vício de profissão.)
Depois quis ir de táxi, loucura completa. Ia gastar muito. Uns 50 contos, morava longe. Mas hoje seria mais que justo. No caminho tudo parecia mais intenso e alegre. (Ah! A vida dos que tem carro é mais cômoda.) Chegou logo em casa. Decretou dia de folga. Não faria mais nada. Só ia curtir o momento. Quase comemorar. Abriu um vinho branco e até cantarolou Amy, arriscando uns passos na sala, rindo alto. A louca sou eu. You now, I'm no good.
Então:
1) abriu a coluna social diária.
2) deu de cara com uma foto de um casal sorridente, vernissage de um livro.
3) sem respirar leu a dedicatória "para o amor de fulana".
4) nos comentários estava escrito "o casal do ano", "lindos", "amo vocês".
(Eu bem que te avisei, sua idiota! Pra fazer parte disso tem que ter estômago.)
Correu pro banheiro. Vômito e lágrimas. Por mais que se esforçasse entender aquilo era demais pra ela. Sete meses de luto jogados no lixo. Entrou no chuveiro e tomando um banho repetia: para o amor de fulana, para o amor de, para o amor.... para, pá! Tonteou. Seria a labirintite? Escorreu pelos azulejos brancos (davam tanto trabalho para limpar, ainda pensou). Tudo escuro, olhos cerrados. E a água, mansa e morna, escorrendo pelos seus quadris.
Foi encontrada um dia depois pela Carla, moça que, às vezes, ajudava na faxina. Ainda respirava.
Aliviada resolveu sentar-se e tomar café na padaria fina, que custava os olhos da cara.( A vida dos ricos é boa.) Sorveu o expresso com gosto, pensou em como seria dali pra frente, anotou coisas numa caderneta. "Hoje dia 7 de fevereiro encerro mais um ciclo. Uma vida nova me espera e estou ansiosa por vivê-la. Que venha." (Era um pouco dramática, vício de profissão.)
Depois quis ir de táxi, loucura completa. Ia gastar muito. Uns 50 contos, morava longe. Mas hoje seria mais que justo. No caminho tudo parecia mais intenso e alegre. (Ah! A vida dos que tem carro é mais cômoda.) Chegou logo em casa. Decretou dia de folga. Não faria mais nada. Só ia curtir o momento. Quase comemorar. Abriu um vinho branco e até cantarolou Amy, arriscando uns passos na sala, rindo alto. A louca sou eu. You now, I'm no good.
Então:
1) abriu a coluna social diária.
2) deu de cara com uma foto de um casal sorridente, vernissage de um livro.
3) sem respirar leu a dedicatória "para o amor de fulana".
4) nos comentários estava escrito "o casal do ano", "lindos", "amo vocês".
(Eu bem que te avisei, sua idiota! Pra fazer parte disso tem que ter estômago.)
Correu pro banheiro. Vômito e lágrimas. Por mais que se esforçasse entender aquilo era demais pra ela. Sete meses de luto jogados no lixo. Entrou no chuveiro e tomando um banho repetia: para o amor de fulana, para o amor de, para o amor.... para, pá! Tonteou. Seria a labirintite? Escorreu pelos azulejos brancos (davam tanto trabalho para limpar, ainda pensou). Tudo escuro, olhos cerrados. E a água, mansa e morna, escorrendo pelos seus quadris.
Foi encontrada um dia depois pela Carla, moça que, às vezes, ajudava na faxina. Ainda respirava.
domingo, 25 de janeiro de 2015
Mar-amor
Na primeira vez em que nos
encontramos eu era uma pequena garota, de uns 5 ou 6 anos. Descemos, eu e minha
irmã mais nova, as curvas da estrada de Santos com nossos tios, num fusca. O
dia era cinzento, feio. Usávamos uns maiôs azuis iguais, com babadinhos.
Confesso que não entendi porque as pessoas falavam tanto dele. Minha mãe, por
exemplo, tinha tantos poemas sobre. Achei, com meus olhos de criança, feia e
triste aquela paisagem.
Na segunda vez eu era uma
adolescente, 13 anos, corpo recém-transformado, de menina em mulher. Fui de
carro com os tios, fora de época, em um feriado emendado. Guarapari. Ali vi o
seu azul intenso pela primeira vez, paixão. Sorrateira, fugia da casa e dos
afazeres de sobrinha moça, ganhava a praia das amendoeiras. Ali caminhava e
sorvia seu fluxo, em silêncio. Voltava dando uma desculpa, os olhos brilhantes
como se carregasse um segredo. Na viagem para Belo Horizonte ainda sentia sua
presença em meu corpo, na pele salgada e dourada e nos cabelos queimados de
sol.
A terceira vez foi com a minha família.
Viagem longa na saudosa Variant amarela, dirigida bravamente por mamãe. (Puxei
meu pai, nunca gostei de dirigir automóveis.) O bronzeador tinha um cheiro que
nunca vou esquecer. O biquíni era azul. Sempre. E o encontro se repetia ano
após ano. Nova Almeida, Marataízes, Santa Mônica, Jacaraípe. Comecei um ritual.
Conversava baixinho, pedia coisas, agradecia. Você, o vento, a areia, o sol. Àquele mundo sentia pertencer atavicamente. Desde então, em novembro, já sentia aquele ar que vinha de longe, trazendo seu cheiro e seu
chamado.
Antes dos vinte e um conheci sua
face carioca. Copacabana. Pela primeira vez tive medo. Como eram grandes seus
humores. Como era bonito ver sua imensidão. Queria ficar ali, morar perto de
você, meu amor.
Com a chegada dos filhos vieram novos
ciclos. Outras terras. Frias, calmas ou agitadas foram suas águas. Nossa paixão
diminuiu um pouco, outras pessoas vieram compartilhar seu encanto comigo. Mas
sempre, num pequeno momento, nossa hora de confissão chegava. O ritual
permanecia.
De repente a vida virou, mudou
tanto. Das últimas vezes andava tão melancólica que passei a achar que era
delírio da minha parte dar-te tanto valor. Tivemos alguns encontros estranhos,
sem intimidade. Nem sabia o que pedir ou desejar. Foi um tempo de silêncio inquieto.
E então, sem planejar, parei de repetir os votos uma vez por ano. Desanimei um
pouco. Busquei águas mais doces. Pensei que podia, muito bem, viver sem você. Mas depois de uma visita às terras
pernambucanas, dividindo seu azul com a poesia que me habitava naqueles dias,
quase enlouqueci e usei as poucas economias que tinha para comprar um casebre
perto de ti, numa vila com nome indígena. Por sorte a razão me aconselhou e não segui meu impulso. Seria um
erro, como outros que andei cometendo. Sei que você não me seria fiel. Entendo. É da sua natureza. Melhor continuar
como amantes.
Esse ano quis muito ver-te
novamente. Passei pelo Rio e combinamos que o encontro seria na Bahia. Onde
tudo se torna intenso. Foi como reatar um romance. Você forte, quente, vigoroso, envolveu meu corpo num abraço sem fim. Encharcou-me. Como pude me separar de ti e
por tanto tempo? Como pude deixar de te falar, pedir e agradecer por tudo?
Vamos ficar juntos novamente. É só o que te peço. Sem condições e sem limites.
Preciso-te. Amo-te.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
Dois lugares
Há muito tempo queria fazer algo
assim. Mas a família, os afetos, os amigos me levaram para outros cantos. Eu ia,
cozinhava, brindava, ria, bebia, pedia. Um novo ano, amor, saúde, paz,
harmonia, trabalho, um pouco de dinheiro e todas essas coisas que pedimos
sempre, com medo de que, se não o fizermos, tudo possa dar errado. Era bom, mas
a sensação era de incompletude. Minha melancolia, que hoje compreendo melhor, me assaltava e eu chorava escondido, no meio de tanta alegria.
Dessa vez decidi por uma intuição
antiga, passar o ano em um retiro espiritual. Sem conhecidos. Sem festa. Pedi
ajuda e consegui a indicação de um lugar. Perto daqui. Um movimento que passa
por diversas crenças e segue mestres espirituais. Um Ashram que cultua a paz e
o espírito.
Saímos cedo, de carona com mais
duas moças e um rapaz suave, que nos guiava. Ao chegar encontramos a natureza
presente, cuidada pelas mãos dos que formam uma comunidade. Sou de fora,
visitante. Assim como mais quatro adultos e uma criança que vieram. Somos
acolhidos com generosidade. A comida é vegetariana. As atividades começam com
apresentações, exercícios, brincadeiras. O clima é amigável, nada sisudo.
Depois conhecemos o templo, os mantras, meditação, orações. Tudo é novo e
intenso. Mas o mundo de fora ainda me agita os pensamentos. Nos momentos de
intervalo querem saber de nós. Todos ficam curiosos com o teatro.
Então você é artista? Sim, sou. E penso no significado dessa afirmação.
Durmo na cama beliche da hospedaria
como há muito não conseguia. Estava
exausta, o esforço para estar ali fora enorme. Acordo bem disposta e alegre,
como há muito não acontecia. O dia final do ano começa com meditação. A
meditação é sempre uma tentativa. Quando conseguimos estar ali, em corpo e alma
é um presente. E assim segue o dia, como uma preparação para algo maior. Desenhamos
uma mandala, escrevemos nela nossos verbos: eu sinto, eu vejo, eu ouço, eu penso.
Depois novas atividades e a ceia foi servida, deliciosa, em volta da fogueira,
com mantras e histórias. Sentada na grama, debaixo de uma enorme mangueira, converso com a mulher que tem o mesmo nome da minha avó. Com certeza ela estava ali, comigo. Uma hora antes vamos
para o templo. Em silêncio, todos sentados, em posição de lótus. A brisa entra
pelas cortinas e elas tocam meu rosto. Agradeço por estar ali. Profundamente.
Depois em roda, mãos dadas, ouvimos o ano nascer, cantando. Vamos para o lado de fora, nos abraçamos. E descemos em silêncio, passando sobre o riachinho que circunda o local.
Durmo leve. Estou ainda assustada
por ter conseguido. Na manhã, em jejum, na entrada do templo nossos pés e mãos
são lavados. Oferecemos flores ao mestre, é bonito ver as crianças
participarem. Depois o guia espiritual nos oferta uma mensagem. Desfrutem. Mas não com o ego, com a alma. Tomamos café e
em roda, como no teatro, cada um fala do que vivenciou. É difícil não se
emocionar. Foi assim comigo também. Falo do primeiro dia e daquele. Da mudança operada. Termino dizendo: fico feliz em saber que um
deus me habita.
Volto para a cidade. Decidi parar
de fumar e de comer carne. Vou achar um
canto aqui na minha casa para rezar e meditar toda noite. Quero essa paz que
consegui lá em muitos momentos. Preciso dela.
No dia seguinte vou para o Rio,
com minha mãe e irmãs. Viagem resolvida assim de repente, na varandinha do
apartamento. Fiquei surpresa, mas pedi um ano de muitas viagens e elas começaram
a vir. Ir com nossa mãe fazer um passeio assim foi um presente. Passamos por um
ano difícil, que necessitou de muita paciência e cuidados. E as mulheres, as
filhas, são as que cuidam, quase sempre. Minha mãe adora o Rio, um dos lugares
em que passou sua lua de mel. Eu sempre achei isso a coisa mais chique desse
mundo. Em Copacabana. Mesmo lugar em que escolhemos ficar. O mar perto e tão bonito,
as calçadas desenhadas, os velhos e seus cachorros por toda parte. Os dias
ensolarados e as noites enluaradas. A gente se abraçava igual criança e dizia:
nem acredito que estamos aqui!
Quatro mulheres dividindo um
quarto, num hotel antigo. Muitas risadas, conversas e horas para ficarem
bonitas. Mamãe toda vaidosa, nunca saía sem seu baton e lenço no pescoço. Uma
rainha, cuidada por todas. Foi bom vê-la inspirada, arriscando em suas falas
pequenos poemas. Fomos comer pizza na orla, lanchar na Colombo, arriscamos Ipanema
de metrô, verdadeira aventura, fomos à Urca apreciar a vista, com os barcos e o Pão
de Açucar. Comemos muito peixe, camarão, tomamos vinho e chope. Dividimos sobremesas,
carinhosamente. Planejamos outras viagens. Nova Yorque? Buenos Aires? A vida é
tão bonita quando festejamos, quando sabemos o porquê de fazer as coisas.
Na volta venho de mãos dadas com
ela no avião. Penso: o Rio de Janeiro continua lindo. Deus está em toda parte.
Amém.
domingo, 28 de dezembro de 2014
Plano de voo
(gosto de vôo com assento, mas sei que não se usa mais)
Não, não vou cair na tentação. De fazer o balanço do ano. De
reviver. De relembrar. Vou apostar no futuro. Ele começa hoje, alguns dias
antes de terminar 2014. Nesse domingo, último do ano.
Nesse novo tempo quero muito. Mas sem pressa. Quero querer.
Meditar. Limpar corpo e alma no silêncio da natureza.
Ver o mar. Virar um pouco índia, mergulhar. Nas águas
salgadas me purificar.
Comer e cozinhar.
Parar de fumar.
Tatuar palavras na pele. As primeiras serão: espelho de mim,
corpo-alma.
Atuar. Trazer a atriz adormecida para dentro da casa e
quintal. Compartilhar.
Buscar relações de equilíbrio. Apostar na troca, sem cobrança
e expectativa.
Deixar os cabelos crescerem.
Cuidar de mim.
Viajar.
Experimentar novos lugares.
Aprender a cobrar pelo meu trabalho.
Achar que mereço.
Encontrar na família, amigos.
Nos amigos, afeto.
No trabalho, gosto.
Passear mais com minha mãe.
Arrumar a casa, por fora.
Ficar calma, por dentro.
Dormir sem sobressalto.
Voltar a andar.
Talvez correr.
Plantar uma horta: manjericão, alecrim, cebolinha, alface.
Plantar roseiras.
Ver o pomar frutificar.
Viver com alegria e fé.
Aos poucos e intensamente.
Como se tivesse acabado de nascer.
domingo, 21 de dezembro de 2014
7 dias
Domingo. Chego atrasada para o encontro com minha irmã que vai me
ajudar a comprar uma roupa. Tomamos um café no shopping lotado. Tenho dificuldades
com comprar nem que seja uma coisa à toa. Costumo desistir no meio. Consuelo me
faz experimentar muitos vestidos, que pacientemente escolhe. Deixo alguns reservados
e prometo voltar. Mas na verdade não gostei de quase nenhum. Na segunda loja a maratona
recomeça. Visto um macacão estampado. Isso é estampa de bicho?. Ah...sim , mas
bem discreta. Mas eu sou contra estampas de bicho. Ah...mas ficou lindo! É acho
que vou levar. Preciso experimentar coisas novas. Depois parece um vestido com
flores e ramagens. Acho que esse ficou melhor. Leva os dois. Não posso. Tô sem
grana. Vai levar, sim. Ajudo a pagar.
Parcela de 6 vezes? Sim. Minha mãe a outra irmã chegam e me convencem. Ficou ótimo!
Saio com a sacola da loja chic. Há quanto tempo não fazia isso. Até gostei. Sentamos
para almoçar juntas. Carne. Não costumo comer muita carne, mas preciso aprender
a fazer coisas que não faço. Vai me fazer bem. Tomamos chope. Combinamos coisas
do Natal. Depois vou ao encontro de amigos, de táxi. Comidas de terras do
norte, maniçoba, tacacá, mousse de bacuri. Tantos sabores e carinhos, na casa
da Gigi, nova querida. Vinho. Cigarros
fumados na área de serviço. Risadas. Quase feliz. Volto tarde para casa,
trocando impressões com minha parceira de vida e trabalho, Denise.
Segunda. Dia de trabalho, rescaldo do ano, correndo atrás de grana,
pagando contas.
Terça. Levo minha mãe na terapia. Reencontro os olhos verdes da
moça que nos atende. Tanta doçura e compreensão. Depois do almoço vou a uma
consulta de tarô. Minha mãe acha o máximo. Ela vai adivinhar seu futuro? Não,
mãe. Os oráculos leem nosso inconsciente. Apenas. Quatro horas de conversa com
uma maga, minha vida dos últimos 5 anos passa em revista. Lembro-me da primeira
carta no centro da mandala que se forma. The Devil. Você já perdeu muita
energia com isso. Passou. Foi bom, mas terminou. Agora os caminhos estão se
abrindo de novo. Novo tempo, novas parcerias, nova vida. Saio com a cabeça cheia
de tantas imagens e palavras. A energia se renova. Vou ao encontro da filha, já
impaciente com minha demora. Duas vezes shopping em uma semana. Estou mudada
mesmo. Ganho uma sandália dourada. Saltos vão me fazer bem, deixar essa mulher
mais confiante. Depois de chope e tira-gosto num lugar lotado e com mulheres,
que histéricas, comemoravam o Natal da firma, saímos. Na rua corremos para pegar
o 4403, quase no sinal. Que sorte! Em
casa somos surpreendidas por quatro filhotes de gato no quintal. Coloco leite e
comida, mas deixo-os do lado de fora, com uma caixa de papelão para dormirem.
Quarta. Depois do café com a filha resolvo colocar os gatinhos
dentro de casa, no meu quarto e banheiro. Riva, o gato que acolhi uns dois
meses antes, está agitado. Vou ter que achar um lar para eles. Começo uma campanha
com fotos na internet. Ligo para mil lugares. Gatos nessa época? Difícil. À
noite caio na besteira de vasculhar fotos e vídeos. Dói de novo. Divido um ravióli
com a filha, que chega do trabalho. Mas não sinto muito o gosto. A asma volta
com força, quase não durmo. O quarto com cheiro dos gatos ajudou. Uso a bombinha
muitas vezes. As mulheres são mesmo loucas.
Quinta. Faxina no galpão. Quase não consigo fazer nada. Limpo as
cadeiras junto com a moça. Compro remédios. Vou parar de fumar. Juro. Não
almoço. Saio para ir ao banco. Depois fico em casa. A filha avisa que vai sair
com as amigas. Não devo ficar aqui. Ligo para um amigo e vamos ao cinema.
Hobbit, 3D, no shopping. Três vezes em uma semana. Foi divertido. Nas cenas de
amor, chorei. Sou mesmo uma manteiga derretida.
Sexta. Consegui dormir bem. Saio cedo para a terapia. As mulheres
que me ajudam a dar conta da vida. Levo um livro, “A dor de amar”. Leio um
trecho para ela. Esse alguém que te ouve e refaz junto um percurso. Sinto como
quando andamos de bicicleta com rodinhas atrás, até aprender a se equilibrar.
Despeço-me dela e agradeço. Você está sendo muito importante para mim. A tarde
ajudo minha nora nas arrumações. È bom estar em movimento. Ela é doce e conversamos,
enquanto executamos as tarefas ditas femininas. Volto para casa. Estou mais
animada. Um dos gatinhos consegue um novo lar. O ano do cavalo quase me atropelou,
mas no finzinho dele consigo montá-lo e dizer: agora vou com você.
Sábado. Durmo sem colocar o despertador. Vou com a filha fazer as
unhas. Vermelhas. Há quanto tempo não fazia isso. De longe me vejo no espelho
do salão. Toda vez que tento ficar bonita sua lembrança volta. Respiro,
respiro. Vai passar. De volta à casa as tarefas domésticas me mantêm ocupada. Depois
ganho maquiagem pelas mãos da filha. Subo a rua. Chego cheia de coisas na
sacola. Beijo o filho, passo sua camisa. Convidados chegando, mesa posta,
música. Família. Comida. Alegria. Hora do brinde. Procuro meu antigo
companheiro, pai dos meus filhos. Peço para dar o braço a ele. Ficamos assim em
silêncio. E assim assistimos à cena. Cartas lindas de amor trocadas pelo casal
que se une. Lágrimas saltam dos olhos. Abraços, bênçãos. Que deus proteja o
amor de vocês. A festa continua, mais solta. Danço. Bebo. Por dentro agradeço.
São tantos que nos cercam. Rose e sua família, pessoas tão especiais. Minha
mãe, a rainha. Meus filhos, amores. Seus amores, pessoas bonitas. Meus irmãos,
sobrinhos, meus cunhados, primos. Tantas histórias. A família que vem do
planalto. Tão fácil gostar dela. Nossos amigos. O garçom jovem que serve as
bebidas. Tudo nos afeta. Tudo é afeto.
Domingo. Dia de descanso e recomeço. Que a última semana do ano seja
leve.
domingo, 14 de dezembro de 2014
A queda
Saio pelo
terceiro dia seguido para caminhar. Retomo assim algum exercício físico, para
organizar corpo e a cabeça. Também por recomendações médicas. Bom pra asma, bom
para ansiedade. Tantas desculpas serviram para que eu parasse. Todas furadas.
Mas já me conheço o suficiente. Enquanto a necessidade extrema de endorfina não bate a porta
vou me enrolando. Apesar de gostar de muitas atividades. Experimentei várias. Gosto das que juntam corpo e mente,
como t’ai chi e ioga. Mas, por incrível que pareça, gostei de musculação. Dos
aeróbicos gosto de nadar, correr. E
andar. O mais simples de todos. O mais próximo da nossa “estrada”.
Coloco meu tênis
furado, bermuda presa com alfinete na cintura e uma camiseta. Passo filtro
solar, não posso mais abusar do sol. Que pena. Saio antes de 7, cada vez acordo
mais cedo, a noite não tem sido boa companheira. Caminho por uma avenida
próxima de casa. Poderia ser bonita e bem cuidada, mas não é. O passeio é
largo, até chegar perto do Parque Ecológico são uns dois quilômetros. Ida e
volta: quatro. Costumo fazer em uns 40 minutos. No percurso vou tentando me convencer
de que, sim, está tudo bem. O pior já passou. O ano acabando, algumas vitórias,
fechamento de processos, natal em sítio, retiro espiritual no ano novo, promessa
de mar no verão. Meu andar vai ficando confiante, abro os ombros e deixo meu
aspecto de cansada para trás. Inspiro com força o ar. Essa asma idiota precisa
acabar. Você precisa mesmo parar de fumar, sua louca.
Quase perto do
retorno começo a organizar o que devo dizer na terapia, contar do turbilhão da
semana anterior: estreia, encontro, crise respiratória, escrita, dúvida, choro,
família. Pensava já com distância, com discernimento. No final do passeio,
perto de um restaurante que frequentava e que se chama agora Prainha, faço uma curva
e volto. O passeio apresenta um ligeiro aclive. E em segundos, por uma pisada
em falso, escorregão, tontura, caio. Não foi pequeno tombo não. Vim batendo
todas as partes dos braços e pernas no muro até chegar ao chão. E bater a
cabeça no cimento. Alguém de um carro que estava parado no sinal pergunta se
preciso de ajuda. Não vejo seu rosto, mas que digo que não, obrigada. Consigo
levantar. A perna esquerda sangra um pouco, a cabeça tem um enorme galo, os
ante-braços ficaram raspados. Tudo me dói. Volto a caminhar, vacilante. As
lágrimas escorrem. Desabo. Todas as
minhas novas crenças se vão. Fico a me lamentar, começo a falar sozinha. Culpo
o mundo pela minha queda. A vida é injusta.Tenho escutado isso de tantas
pessoas. E não perco essa mania de querer explicar tudo que me acontece de
maneira simbólica. Metaforicamente. (Isso é cansativo, bem sei. Mas como
evitar? Se tudo que faço tem a ver com significar?). Em casa, um pouco mais refeita, coloco gelo nos
pontos doloridos, a sensação de anestesia é boa. O gato vem me consolar. Esse gatinho entende tudo melhor que eu. Vou ficar com alguns sinais roxos,
pele lanhada, intumescências, mas sumirão logo.
Dias depois, em
casa de minha mãe, falo com ela do tombo. Mostro as marcas. Ela me acarinha. (Ah! as mães...) E fica
querendo saber como foi. Solidária, tenta mais uma vez explicar o dia em que caiu no
quarto e fissurou uma costela, relembrar o que tinha acontecido. Descreve tudo
minuciosamente, mas não encontra a resposta. Isso tornou-se quase uma obsessão
para ela. Respiro fundo. Mãe, digo com paciência, queda não tem explicação. Se
a gente soubesse o porquê não aconteceria.
Simples demais.
Sem metáforas, por favor.
domingo, 7 de dezembro de 2014
Um dia, o gato
Acordo cedo e tomo café com a
filha. O dia promete muito trabalho. Teatro é coisa que cansa, bem sei. Já
pensei em desistir, mas o tempo passou e não encontrei nada que me motivasse
tanto. Nem que fosse tão (im)permanente como a vida. Deve ser por isso que
prossegui.
Escuto um ruído constante, parece
um pio de alguma ave, dessas que frequentam o quintal cheio de mato e sementes,
abundantes pelas chuvas dos últimos dias. Fico trabalhando, sem poder me
deslindar do que faço, mas com o ouvido atento. Cessa. Depois de um tempo
recomeça. O que seria? Parece um pedido de ajuda. Os intervalos vão ficando
menores. Enfim levanto, um pouco contrariada. No meio do mato úmido, próximo ao
portão, um filhote de gato, magro, com um olho machucado, mia agora sem parar.
Gosto de gatos. Mas confesso: fico irritada. Alguém jogou aquele pobrezinho
ali, talvez passando pelo cano de leitura da Copasa. Volto à cozinha e pego uns
pedaços de pão integral e molho com água. Leite não tinha. Ele come um pouco.
Volto ao trabalho, sem concentração. Logo preciso sair. Não sei o que fazer com
ele, tempo curto pra cuidar de alguém. E as minhas últimas tentativas de
cuidar, não valeram muito a pena. Ou valeram? Cuidado demais sufoca. Bem sei.
Disparo um comando para que minha cabeça pare com aquelas ideias, louca
buscando respostas onde não há. Penso que o gatinho poderia ir embora, por
conta própria, passando pelo vão do portão, que estava se enferrujando sem
pintura. Saio um pouco culpada, essa nova pessoa, mais egoísta, custa a
combinar comigo. Cuide de si, escuto sempre. Então, gato, sinto muito. Vou ter
que te deixar entregue à própria sorte.
Passo o dia na lida, passando por
muitos problemas e lugares, como todos os mortais. À noite, entre companheiros,
falo dele. Eles me encorajam a ter um animal. Vai ser bom pra você. Mas eu
tenho asma. Eles são carinhosos, divertidos. Minha filha não gosta de gatos. É
fácil de cuidar. Não. Agora não. Chego bem tarde, meus amigos me deixam de carro
no portão. Do lado de fora ouvem-se os miados, altos. Sim, o gato sobrevivera.
Abro o portão, todos olham. Pronto, agora com testemunhas, não tenho como
escapar. Pego o gato sem jeito, há quanto tempo não pegava em um? Nem parecia
aquela garota da foto que, com uns dois anos, abraçava um gato angorá enorme,
no quintal da sua avó. Em casa arrumo uma caixa de sapato, uma camisa
velha e ensino que ele fique ali. Acho um resto de iogurte na geladeira, sim a
casa andava fraca de comida, andei mesmo sem apetite. Misturo um pouco d’água e
coloco num pote de margarina. O gatinho gosta. Toma com sofreguidão. Seu olho
muito vermelho e melado, pode ser uma conjuntivite. Ou ele pode ser cego. Isso
me enche de compaixão. Se ele for mesmo cego como posso deixá-lo? Pelo celular
conto à filha, que estava fora, a novidade. Ela não demonstra nenhum interesse
por um gato em nossa casa. Preocupada vou dormir e deixo que ele fique na sala,
com a luz da cozinha acesa. Ele se comporta muito bem, sem nem um pio, digo,
miado. Dormiu na caixinha que arrumei. Fico feliz, entendo alguma coisa de
gatos. Já tive outros, há muito tempo, criados fora de casa. No outro dia vou à
farmácia e pergunto a moça o que posso usar no olho de um gato. Ela me vende um
frasco de soro fisiológico. Mas alerta: se for conjuntivite tem que usar um
colírio com antibiótico. Em casa ele deixa que eu limpe seus olhos, até gosta,
parece receber um carinho. Compro leite e ração, da melhor marca. Gatos custam
caro. Bem sei. No terceiro dia, com pouca melhora da inflamação, consigo marcar
uma veterinária, Dra. Marlene. Ele é levado dentro daquelas maletas. Já está
bem esperto, foge quando vou procurá-lo. Volta de lá medicado, e com uma dose
de penicilina para gripe. Notei mesmo que ele espirrava. Como a gente. Compro o
colírio. Compro areia para suas necessidades. Potinho para ração, água e leite.
Já tem nome, Riva. Nome de personagem, claro. O que seria da gente sem a
ficção. Pelo telefone, a filha alerta que não quer gato quando voltar. Quem é a
mãe mesmo? Trocamos de papéis, muitas vezes. Ela me dá muitos conselhos. De mãe
para filha. Vou pensando no que faço com Riva, enquanto me afeiçoo a ele. Anda
por todos os lugares, vai tomando conta de tudo. Tapetes, canetas, roupas, tudo
vira brinquedo. Diversão das noites solitárias. O olho ferido se abre, me olha.
A filha chega. Riva, dono da casa. Ela reage bem. Embora o combinado seja
arranjar um novo lar para o hóspede. Com gente em casa Riva fica muito feliz.
Inventa tanta maluquice. Usos estranhos para coisas banais. A gente acaba dando
risada junto. O que tem de bicho na gente ainda? Muito pouco. Eles apenas vivem
sua natureza, Clarice que o diga. E o assunto delicado vai ficando pra depois.
E depois. Um dia chego em casa e a filha relata suas aventuras com o gato.
Andaram até brincando juntos. Estão se entendendo.
Nem preciso dizer que Riva ficou.
Enquanto escrevo ele se enfia debaixo do tapete, vem pro meu colo, pisa no
teclado, dorme dentro de um cesto, tenta matar aleluias que caem do teto. E
muitas vezes, quieto, olha para o nada. Os estados mudam muito rápido. Isso me
impressiona. Prontidão e serenidade se equilibram. Algo em mim é acionado
quando estamos próximos. Uma calma. Um aceitar. Um reagir. Preciso dele agora.
Seja bem vindo, Riva.
domingo, 30 de novembro de 2014
Oxigênio
Apresento meus olhos marejados e minha insuficiência respiratória à Dra. Carla, tão nova. Ela escuta. Desabo, deixo as lágrimas correrem no rosto abatido. Ela pergunta se aconteceu alguma coisa. Eu digo que é difícil passar mal quando se está sozinha. Ela segura minha mão e diz: eu estou aqui. Aconselha que fique longe de poeira, animais, problemas demais. Seus olhos se parecem com os do gatinho que vive em casa há uma semana. (Hoje escreveria sobre ele, mas a asma foi mais urgente.) Olhos que me viram, no fundo. Com delicadeza escuta meu coração e os pulmões. O direito está mais tomado, diz. Prescreve uma inalação. Outra moça, enfermeira de sorriso doce, me ajuda. Só vejo mulheres atendendo no posto. A dedicação delas compensa a falta geral de condições do lugar. Coloco a máscara verde e consigo inspirar aquele ar úmido. Outra droga. Não choro mais. É preciso evitar esse vazamento público. Termina o tempo. Reanimada volto a ela e agradeço.
Arrumo os cabelos, presos num coque. Atravesso a sala de espera do posto, vejo aquelas pessoas. Penso no que adoece cada um. A menina pequena. A mulher de cabelos tingidos de louro. O homem velho com um curativo sobre o olho esquerdo. Saio. Venho caminhando pelas ruas, mais forte. Vou refazendo aquele percurso conhecido, que atravessava no nosso carro velho, cor vinho-metálico. O bar, a sorveteria, os correios, a padaria chic. Agora sou sozinha de novo. Preciso saber cuidar de mim. Preciso aprender a respirar. Todos os dias.
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