domingo, 31 de maio de 2015
Dia de.
Fazer o domingo de novo é arrancar a pele pra que a carne viva.
Cavucar a terra até que a mãe sangre.
Bater no peito pra lembrar da dor.
Espatifar os vidros das garrafas solitárias, no fundo da casa.
Deixar o choro de misturar ao solo, regar o mato. Esse que cresce. Sempre.
Beber a água suja da bacia-mar.
Com paciência fazer o barquinho de papel, como se fosse brincar.
É se ver no espelho ainda forte.
Preparar a broa e esperar seu perfume.
Incensar a casa cantando.
Cuidar das roupas e das pequenas lembranças para que nada falte.
E virar a Dona Doida. A que mistura Tristeza com Alegria.
E lembrar da doce Cora e suas roseiras.
E chamar Clarice puxando o traço do delineador.
Trazer Frida para a mesa do I Ching.
Lembrar das mulheres da minha ancestralidade.
Evocar minha doce avó Páscoa. Esperar meu duplo: a mulher xamã. Receber a garota de cabelos curtos, suave. E a moça das tatuagens que me enigmam. Companheiras.
De extremos faço meu domingo.
De delicadezas e pequenas violências.
De ar e fogo. Quente e frio. Coturnos e pés descalços.
Que seja mais um dia do resto de nossas vidas, ainda que a vida não tenha necessariamente um resto.
domingo, 10 de maio de 2015
Das mães
Hoje eu falo das
mães. Da mãe do Francisco, da mãe do Lucas, da mãe da Joana, da mãe da
Consuelo, da mãe da Carmen, da mãe da Sílvia, da mãe do Paulo, da mãe do Tomaz,
da mãe do Gustavo, da mãe do Rafael, da mãe da Izabel, da mãe da Thaís, da mãe
da Natália, da mãe da Fernanda, da mãe do Léo, da mãe do João, da mãe do
Arthur, da mãe da Cely, da mãe da Maria Luiza, da mãe da Luna. De todas.
Das mães que
amamentam, das que criam seus filhos sozinhas, das que tem ao seu lado um
pai, das que os amam, das que os
rejeitam, das que batem nos filhos, das que os protegem. De todas.
Falo das mães
que planejaram ter seus filhos, das que fizeram inseminação artificial, das que
os tiveram por descuido, das que os tiveram por tesão, das que os tiveram por
amor, das que os adotaram, das que os abortaram. De todas.
Das que fizeram
das tripas coração, das que tiveram seus peitos inflamados, das que fizeram
cesárea, das que pariram de cócoras, das que morreram de parto. De todas.
Falo das que
criam seus filhos entre lençóis de linho e babás, das que os criam nos trapos,
ao léu, das que deram a eles leite nan,
das que fizeram papinhas, das que compraram os
potes na farmácia. De todas.
Das que lavaram
as fraldas de pano, das que procuraram as descartáveis mais baratas, das que
usam só o modelo mais avançado. De todas.
Das que os
levaram ao médico de madrugada, das que perderam noites de sono, das que
tiveram medo de perdê-los, das que os perderam. De todas.
Das
desnaturadas, das dedicadas, das cansadas, das displicentes, das castradoras,
das compreensivas, das enlouquecidas, das amorosas, das adolescentes, das
temporãs, das insones, das insanas, das matronas, das edipianas, das novatas,
das experientes.
Todas as mães do
mundo merecem ser felizes. Todas.
Que sua função
não seja considerada natural, mas uma escolha, uma conquista, uma benção.
Que ser mãe seja
um direito e não uma imposição da sociedade, que seja um exercício pleno e
feliz: compartilhar a vida, o peito, o afago, a convivência.
É isso que
desejo a todos nós. Alegria mesmo na adversidade.
Feliz todo dia
das mães.
ps: esse texto foi postado anteriormente no blog "Solteiras e descoladas".Peço licença...
domingo, 12 de abril de 2015
Sábado
Saiu do Maletta pisando firme,
com sua calça jeans com cara de anos 70, botas usadas e uma camiseta molenga de
listras azuis, navy, roubada da
filha. Uns copos da velha Heineken deixaram-na leve, assim como a conversa
divertida com amigos, no meio do burburinho da rapaziada, artistas e malucos de
sempre. Aquele lugar era antigo e as pessoas pareciam as mesmas. Era como se
tivesse 20 anos e muita esperança na vida. Os poros abertos e prontos pra viver
tudo com intensidade. Ah...aquela sensação de vertigem diante de tudo. (Podiam
vender em frascos. Com uma respiração teria tudo de volta.)
Andando pela Avenida Augusto de
Lima, seus 55 anos voltaram, mas de outro jeito. Tinha mais coragem. Seus
ombros caídos se aprumavam. Acabou? Parece que aquela mágoa se dissipava, enfim.
Aquele incômodo no estômago. Acho que sim, agora sim. Como a vida podia ser plena
de novo.
Bom estar em cartaz num teatro no
centro da cidade, um pouco de luxo, “por deus, que eu também preciso”, diria Clarice. Depois um bar, bebida, riso. Um pouco de comemoração. Andava carente de celebrar. Bebia pouco,
não comia mais carne, não fumava. E não tinha companhia. Se é que me entendem. Sem
príncipes ou sapos seguia. As noites eram longas, às vezes insones. Mas hoje
era tudo diferente. Era? Ou apenas queria que fosse?
Pegou o primeiro ônibus. Teria
que baldear no bairro. Na viagem pensou que há mais de 30 anos fazia aquele
trajeto. Quase sempre no transporte público. Ruim. Demorado. Cheio. Conseguiu
se sentar e veio observando as ruas. Tudo mudou pouco. O progresso chegou, mas
nem por isso o caminho ficou mais curto. Cada vez parecia mais demorado chegar.
Desceu no Esquinão. O nome permanecera, mas nem existia mais o lugar de sanduíches, perto da sua
casa antiga. Lembrou que ela ficava na rua de trás. Teve vontade de atravessar, virar a esquina à direita e bater. Pra conversar, sei lá... A solidão não é boa conselheira. Ou é?
Ficou no ponto. Quinze minutos
foram suficientes para que desatasse a chorar. Do nada. De novo. Era dona Alegria
ou Tristeza batendo? As duas, juntas. Chorou sem vergonha dos que a observavam.
“Eu gosto de chorar, eu preciso....” Entendeu que ficar parada não lhe fazia
bem. O I Ching já aconselhava, a terapeuta também. Manter a pulsação.
Recomeçou a andar. Seriam dez
quarteirões até a casa amarela. Acelerou o passo. O frio do outono entrou pelas
suas narinas. Chegou aos pulmões. Ar fresco. Respira, respira. Fechou o moleton
encarnado. Passou a mãos nos cabelos, louros e brancos. Começou a sorrir de
novo. Até que sua vida era boa. Era sim. Em casa um gato a esperava.
domingo, 5 de abril de 2015
Domingo de "Páscoa"
Já fiz “quaresma” muitos anos.
Ficava sem comer carne e sem tomar cerveja, que na época gostava mais, por quarenta longos dias. Ia à igreja, assistia comovida a encenação da paixão, acompanhava
a procissão que passava em frente da minha casa. Era bom ouvir os sinos bem
cedinho, o céu ainda escuro e a cantoria. Muitas vezes levei as crianças e fomos percorrendo as ruas do
bairro, cobertas de serragem, em tapetes bem singelos. Depois havia missa na
Igreja de Santo Antônio da Vila Belém. Na volta passava na padaria, comprava pão e levava pra tomar
café em casa. A alma agradecida e mais leve, depois de tanto sofrimento.
Um belo dia, depois de tantos trancos, pensei: não quero
mais fazer isso. Acho que nas minhas preces pedia coisas erradas, coisas que estavam fora
de mim. Pensando no meu caminho espiritual vejo que desde que tive filhos voltei a ter vontade de rezar. De agradecer o
mistério da vida. De encontrar meu caminho para o divino. Mas de uma hora pra outra a religião recebida da família
ficou insuficiente. E a cada dia busco outras fontes, outras crenças. “Reza é que
sara da loucura”, “religião bebo de todas”...penso como Riobaldo Tatarana, jagunço
no sertão de Rosa.
Mas na minha casa tenho um pequeno
altar com imagens de Nossa Senhora Aparecida, a madrinha. E da Nossa Senhora Desatadora
dos Nós. Quero ter um pequeno Buda também. Perto das conchas e cristais. O altar
é inspirado em minha avó, Páscoa. A delicadeza em pessoa. Anjo da guarda que me
protege pelas sendas dessa estrada. Seu altar tinha sempre rosas, colhidas do jardim. Ainda terei. Em sua
homenagem no domingo de hoje mantemos a tradição: fazemos um lanche, reunindo a
família. (das datas católicas, que ainda me afetam, é minha preferida). Cada um prepara algo, como ela fazia. E celebramos
juntos a ressurreição.
A nossa.
Feliz Páscoa!
domingo, 8 de março de 2015
Clarice e Beatriz
Clarice era
aquela tia que ensinava tudo que não podia. Falar gíria e palavrão. Inventar
coisas em horas diferentes. Comer bobagens.
Era a tia que levava mil sobrinhos ao cinema e deixava a gente
assistir duas sessões. Não posso me esquecer da histeria coletiva em “Roberto Carlos e o Diamante cor de rosa”, no enorme
Cine Palladium.
Era a tia que fumava cigarros Capri. Chiquérrimos. Depois
Holywood, que aprendi a roubar pra fumar no quintal da casa da minha avó. Acho
que com uns dez, onze anos.
Tia Clarice era aquela tia que morava em São Paulo, onde eu
e minha irmã íamos passear sem os pais. E que aparecia de surpresa, no fusca da
família.
Tia Clarice era a tia que um dia se desquitou, coisa rara
pra época, ficou uns meses lá em casa até a vida se ajeitar de novo e depois
buscou as crianças, duas.
Nesse tempo, já adolescente, ficava horas escutando suas
histórias. O mundo dos adultos chegou cedo em minha vida. Eles me fascinavam.
Quando se mudou pro mesmo prédio da minha mãe a gente jogava
“buraco” até tarde da noite, fumando que nem umas chaminés.
Depois quando tinha já um filho pra criar morei com ela,
marido e meus primos, Cristina e André, em seu apartamento, até a minha casa
ficar pronta.
A vida foi afastando a gente, nem sempre consegui voltar a
ter com ela aquela intimidade boa da infância, adolescência e primeiros anos
como adulta. Mas ela sempre foi além de tia amada, a madrinha, uma fada
madrinha. Dessas que a gente tem na vida pra nos proteger. Nunca vou esquecer
sua risada. Alta, gostosa, livre.
Beatriz era a tia
artista. Linda, dona de uns olhos azuis esverdeados e uma voz de soprano.
Poderia ter sido uma diva da ópera. Foi professora e dona de casa, como todas
nós. Tocava piano. Vivia com um bom humor incrível.
Era a tia que nos presenteava com mimos fora de época e que
fazia campanha para os meus cabelos ficarem longos.
Nunca vou me esquecer de uma viagem ao interior, à velha
casa de minha avó. Eu, já uma moça de 21 anos, fui tomando conta de meus irmãos
junto com ela e seus filhos. Toda manhã ela acordava e fazia uma saudação ao sol,
cantando uma letra inventada, naquele quintal mítico, de tantas lembranças.
Perto da pitangueira.
Depois tomávamos café, ela sempre de regime, comia biscoitos
água e sal com leite desnatado. À noite me chamava no quarto e perguntava,
cândida: Quer um bombom? E abria a caixa de bombons de licor, enrolados em
papel encarnado.
Tivemos juntas uma experiência artística. Ela musicou e
interpretou um poema de minha mãe, em homenagem à Bárbara Heliodora. Eu dirigi.
Ensaiávamos na casa da professora, foi um momento bom. Ela cantava, soltava sua
voz aguda. Até no Teatrinho de Sabará nos apresentamos.
Novamente a vida nos afastou. A vida adulta tem esse lado
duro de nos tirar do convívio com seres tão queridos. Em nome do tempo, da
eficiência, do trabalho, do nosso egoísmo e sei lá mais o quê.
Mas ela sempre foi uma inspiração, uma fonte de energia e de
alegria. Uma tia querida, que nos mostrava meios de burlar o cotidiano. De ser
feliz.
Clarice foi primeiro. Há uns três anos. Depois chamou
Beatriz. Que partiu há menos de uma semana. Imagino o tanto de risadas que estão dando
lá em cima.
Um beijo, minhas queridas tias.
domingo, 1 de março de 2015
Preparação
Ontem dormi antes das dez, com o
gato nos pés da cama. Isso tornou o sono leve, com medo de machucar o bichano, pequeno companheiro nessa aventura de fazer da casa amarela um palco.
Acordei cedo, na ansiedade de ver
tudo logo arrumado, a dona de casa eficiente e rápida me invade. Calma, digo
pra mim mesma. Aos poucos vou conseguindo domá-la. Tomo café mais reforçado,
nesses dias nem consigo almoçar, preciso estar faminta. Parece que inversamente
é o estômago vazio que garante a energia, o chacra solar é o mais ativado.
Domingo é um corpo em ação e reação. Um corpo queimando. Acendo um incenso e
rezo no pequeno altar. Nenhum pedido hoje. Pedi tanto nos dias anteriores. Reza
que sara da loucura, já diria mestre Rosa. Acredito. Mas hoje só agradeço. Recebi
muito.
Vou à rua comprar coisas que
faltam para o preparo dos alimentos. Broa de fubá com goiabada e pão de queijo.
Com o ar fresco no rosto, observo o domingo de cada um no caminho. Dia mais lento,
mais leve?
Depois varro o passeio em frente
ao quintal e toda a casa. Passo pano em cada cômodo, gosto de arrumar onde
habito. Ajuda a organizar meu caos interior. Quero que as pessoas gostem daqui,
se sintam acolhidas.
Aplaino a terra, lavo os vidros, escolho
um pedaço de carvão, deixo perto do muro. Encho a bacia de água. Separo o papel
do barquinho. Coloco os vestidos no lugar.
Na cozinha começo a fazer as
comidas. Penso, penso, penso. Como gostaria de meditar por horas e não precisar
“pensar”. Mas penso. A diferença é que agora existe uma calmaria. Um
compreender. Um olhar mais generoso comigo. Tudo isso é fruto da solidão dos
domingos e desse Domingo que hoje se abre para outros.
Já me sinto feliz por ter
conseguido. Junto com a Denise, amiga essencial. Ela está comigo em cena. E
tantas outras mulheres. Familiares, parceiros e amigos acarinham, escrevem,
apoiam. Tocar as pessoas fortalece, impulsiona. Repenso a arte, o teatro que
faço há tantos anos. Que bom ter conseguido não desistir. Tudo que vier agora é
soma. É vida nova em seu fluxo infinito e belo.
Lembro-me do conselho de Hamlet
aos atores: “Ide preparar-vos”.
É o que faço agora.
O resto é medo e coragem.
Bom domingo.
domingo, 15 de fevereiro de 2015
Mas é carnaval
Esse ano decidi ficar fora da
folia. Nos últimos tempos essa data foi sempre intensa para mim, repleta de
momentos que combinavam com a alegria e euforia do carnaval. Dias felizes,
embebidos na mais pura ilusão. Desde a decisão de “sair do armário” aquela
tarde distante em Santa Tereza, passamos por muitas fantasias, brilhamos, brincamos,
até nos pintarmos com as cores do pavão de Krishna, no ano passado: “No
carnaval te conheci/ transcendental te segui...” Foram bonitos aqueles dias de
chuva, suor e cerveja pelas ruas e praças. O carnaval crescendo, o amor crescendo,
as ruas se enchendo e a gente vendo tudo aquilo, com um orgulho e uma esperança
enormes na cidade, nas pessoas e em nós mesmos. Minha carne sempre foi de
carnaval.
Agora que a paixão maior se foi (sei
que um dia vai voltar mas demora tempo) recolho-me à solidão da minha casa em
companhia de minha mãe. Longos silêncios e reflexões sobre a vida. Sobre o
amor. Sobre viver sozinha. “Você não tem medo de ficar aqui sem ninguém?”
Respondo como Diadorim: “Costumo não.” Mas por dentro sei que às vezes tenho
medo sim. De mim.
De longe vejo a alegria dos
outros pulsando na tela. Já é carnaval. Sorridentes, coloridos, desafiantes.
Vem? Vou não. Hoje não. Antes preciso me curar da ressaca do último baile. Confesso
que exagerei.
E permaneço firme na minha
decisão. Até que escutei minha mãe chateada dizer: “Só porque tenho quase 85
anos ninguém quer me levar ao carnaval.” Aquilo ecoou em mim. Envelhecer tem
sido uma questão que me toca todos os dias. “Talvez a gente consiga alguma
coisa aqui no Serrano, mãe. Eu te levo.” Mas falo sem acreditar muito. E então fico
sabendo que aqui no bairro, bem pertinho da gente, a querida Rose, minha amiga
e parceira de vida e luta, fundou o Bloco das Primas. E que vai ter cortejo
pelas ruas do bairro. Ah...Rose! Só você mesmo pra me fazer mudar de ideia,
ainda que com o coração sujo de confetes e serpentinas antigas.
Domingo cedo saio em busca de um
turbante, coloco uma saia estampada, arrumo uns colares pra minha parceira,
pintamos o rosto e lá vamos nós. No caminho esboço um sorriso, respiro fundo e
lembro-me do meu pai cantando pra mim, há muito, muito tempo atrás: Loirinha,
loirinha / Dos olhos claros de cristal...
Resta uma esperança. Outros carnavais
virão. Mesmo triste aceito o convite do moço que passa: vamos brincar?
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