domingo, 7 de dezembro de 2014

Um dia, o gato


Acordo cedo e tomo café com a filha. O dia promete muito trabalho. Teatro é coisa que cansa, bem sei. Já pensei em desistir, mas o tempo passou e não encontrei nada que me motivasse tanto. Nem que fosse tão (im)permanente como a vida. Deve ser por isso que prossegui.
Escuto um ruído constante, parece um pio de alguma ave, dessas que frequentam o quintal cheio de mato e sementes, abundantes pelas chuvas dos últimos dias. Fico trabalhando, sem poder me deslindar do que faço, mas com o ouvido atento. Cessa. Depois de um tempo recomeça. O que seria? Parece um pedido de ajuda. Os intervalos vão ficando menores. Enfim levanto, um pouco contrariada. No meio do mato úmido, próximo ao portão, um filhote de gato, magro, com um olho machucado, mia agora sem parar. Gosto de gatos. Mas confesso: fico irritada. Alguém jogou aquele pobrezinho ali, talvez passando pelo cano de leitura da Copasa. Volto à cozinha e pego uns pedaços de pão integral e molho com água. Leite não tinha. Ele come um pouco. Volto ao trabalho, sem concentração. Logo preciso sair. Não sei o que fazer com ele, tempo curto pra cuidar de alguém. E as minhas últimas tentativas de cuidar, não valeram muito a pena. Ou valeram? Cuidado demais sufoca. Bem sei. Disparo um comando para que minha cabeça pare com aquelas ideias, louca buscando respostas onde não há. Penso que o gatinho poderia ir embora, por conta própria, passando pelo vão do portão, que estava se enferrujando sem pintura. Saio um pouco culpada, essa nova pessoa, mais egoísta, custa a combinar comigo. Cuide de si, escuto sempre. Então, gato, sinto muito. Vou ter que te deixar entregue à própria sorte.
Passo o dia na lida, passando por muitos problemas e lugares, como todos os mortais. À noite, entre companheiros, falo dele. Eles me encorajam a ter um animal. Vai ser bom pra você. Mas eu tenho asma. Eles são carinhosos, divertidos. Minha filha não gosta de gatos. É fácil de cuidar. Não. Agora não. Chego bem tarde, meus amigos me deixam de carro no portão. Do lado de fora ouvem-se os miados, altos. Sim, o gato sobrevivera. Abro o portão, todos olham. Pronto, agora com testemunhas, não tenho como escapar. Pego o gato sem jeito, há quanto tempo não pegava em um? Nem parecia aquela garota da foto que, com uns dois anos, abraçava um gato angorá enorme, no quintal da sua avó. Em casa arrumo uma caixa de sapato, uma camisa velha e ensino que ele fique ali. Acho um resto de iogurte na geladeira, sim a casa andava fraca de comida, andei mesmo sem apetite. Misturo um pouco d’água e coloco num pote de margarina. O gatinho gosta. Toma com sofreguidão. Seu olho muito vermelho e melado, pode ser uma conjuntivite. Ou ele pode ser cego. Isso me enche de compaixão. Se ele for mesmo cego como posso deixá-lo? Pelo celular conto à filha, que estava fora, a novidade. Ela não demonstra nenhum interesse por um gato em nossa casa. Preocupada vou dormir e deixo que ele fique na sala, com a luz da cozinha acesa. Ele se comporta muito bem, sem nem um pio, digo, miado. Dormiu na caixinha que arrumei. Fico feliz, entendo alguma coisa de gatos. Já tive outros, há muito tempo, criados fora de casa. No outro dia vou à farmácia e pergunto a moça o que posso usar no olho de um gato. Ela me vende um frasco de soro fisiológico. Mas alerta: se for conjuntivite tem que usar um colírio com antibiótico. Em casa ele deixa que eu limpe seus olhos, até gosta, parece receber um carinho. Compro leite e ração, da melhor marca. Gatos custam caro. Bem sei. No terceiro dia, com pouca melhora da inflamação, consigo marcar uma veterinária, Dra. Marlene. Ele é levado dentro daquelas maletas. Já está bem esperto, foge quando vou procurá-lo. Volta de lá medicado, e com uma dose de penicilina para gripe. Notei mesmo que ele espirrava. Como a gente. Compro o colírio. Compro areia para suas necessidades. Potinho para ração, água e leite. Já tem nome, Riva. Nome de personagem, claro. O que seria da gente sem a ficção. Pelo telefone, a filha alerta que não quer gato quando voltar. Quem é a mãe mesmo? Trocamos de papéis, muitas vezes. Ela me dá muitos conselhos. De mãe para filha. Vou pensando no que faço com Riva, enquanto me afeiçoo a ele. Anda por todos os lugares, vai tomando conta de tudo. Tapetes, canetas, roupas, tudo vira brinquedo. Diversão das noites solitárias. O olho ferido se abre, me olha. A filha chega. Riva, dono da casa. Ela reage bem. Embora o combinado seja arranjar um novo lar para o hóspede. Com gente em casa Riva fica muito feliz. Inventa tanta maluquice. Usos estranhos para coisas banais. A gente acaba dando risada junto. O que tem de bicho na gente ainda? Muito pouco. Eles apenas vivem sua natureza, Clarice que o diga. E o assunto delicado vai ficando pra depois. E depois. Um dia chego em casa e a filha relata suas aventuras com o gato. Andaram até brincando juntos. Estão se entendendo.

Nem preciso dizer que Riva ficou. Enquanto escrevo ele se enfia debaixo do tapete, vem pro meu colo, pisa no teclado, dorme dentro de um cesto, tenta matar aleluias que caem do teto. E muitas vezes, quieto, olha para o nada. Os estados mudam muito rápido. Isso me impressiona. Prontidão e serenidade se equilibram. Algo em mim é acionado quando estamos próximos. Uma calma. Um aceitar. Um reagir. Preciso dele agora. Seja bem vindo, Riva.

domingo, 30 de novembro de 2014

Oxigênio



 Acorda assustada às 4h30 da manhã. Falta-lhe o ar. Os pulmões cheios. A tristeza ainda não foi embora então? Como demora. A asma é assim: ronda, ronda e quando se instala é pra valer. Desde criança soube disso. Quem mandou ficar fumando cigarros, quatro por dia, como se fosse uma garota. Bem feito! A chiadeira, felino no peito, cresce na madrugada. Cama fria, sem carinho, chuva lá fora, umedecendo a alma. E aqui o desespero pelo ar. Quanto mais se puxa menos entra. Então ela se levanta, pensa num banho quente porque o vapor pode ajudar. Pelo menos tinha uma suíte, ideia que vingara porque queria ter privacidade com seu bem. Agora pra que servia? Besteira esses luxos. Serve, não serve. Mania de pensar nos contrários, negar o que desejou. Era um exercício necessário agora. (Depois refaço tudo, para o bem de todos, na minha cabeça doida sou eu). Chuveiro com água pelando, vidro do box, outro luxinho, embaçado. Volta pra cama depois de se enxugar, os cabelos molharam um pouco. Encosta-se nos dois travesseiros, inquieta. Usa a primeira vez a bombinha. Dois jatos. Droga que alivia. Não faz efeito. Sua ansiedade não deixa. Resolve tomar chá de hortelã, com um pouco de mel. Toma bem quente. Melhora um  pouco. Minutos. Mas logo a falta, a falta, sempre essa falta. De ar. Será que eu posso morrer assim? Sentiu medo. A filha dormia ao lado, cansada de uma viagem longa. Não teve coragem de acordá-la. Vai passar. Fixa o olhar nos azulejos da cozinha. Eles. Resolve ir ao posto médico. Tinha um plano particular, mas perdera, sem grana pra pagar. Usa de novo a bombinha. Só mais essa vez. Liga para o ponto de táxi. Não atendem. Vai andando devagar. Sobe a rua cumprida. Passa perto do supermercado, lembra-se das compras que faziam juntos, vinho, cerveja, comida. Tudo era motivo para. Uma alegria de compartilhar. Era bom. Era. Chega ofegante na avenida. Mais um pouco e se apresenta na janelinha do posto. Ficha. Depois passa pela triagem e força um pouco a falta de ar. A mulher coloca um medidor no seu dedo indicador e garante: ventilação normal. Pulseirinha verde. Ah...quer dizer que estou boa? Fala com ironia. A moça responde com paciência: não foi isso que eu quis dizer. Passa para outro local, parece um depósito. Telhas metálicas, tapumes de madeirite, um container servindo de consultório. Pensa um pouco nas dificuldades de quem mora longe do centro, no descaso com as pessoas menos favorecidas. Desanimada, chora. Alguns olham. Azar, pensa. Sou assim. Depois de uns 15 minutos escuta seu nome. Maria Aparecida.

Apresento meus olhos marejados e minha insuficiência respiratória à Dra. Carla, tão nova. Ela escuta. Desabo, deixo as lágrimas correrem no rosto abatido. Ela pergunta se aconteceu alguma coisa. Eu digo que é difícil passar mal quando se está sozinha. Ela segura minha mão e diz: eu estou aqui. Aconselha que fique longe de poeira, animais, problemas demais. Seus olhos se parecem com os do gatinho que vive em casa há uma semana. (Hoje escreveria sobre ele, mas a asma foi mais urgente.) Olhos que me viram, no fundo. Com delicadeza escuta meu coração e os pulmões. O direito está mais tomado, diz. Prescreve uma inalação. Outra moça, enfermeira de sorriso doce, me ajuda. Só vejo mulheres atendendo no posto. A dedicação delas compensa a falta geral de condições do lugar. Coloco a máscara verde e consigo inspirar aquele ar úmido. Outra droga. Não choro mais. É preciso evitar esse vazamento público. Termina o tempo. Reanimada volto a ela e agradeço.

Arrumo os cabelos, presos num coque. Atravesso a sala de espera do posto, vejo aquelas pessoas. Penso no que adoece cada um. A menina pequena. A mulher de cabelos tingidos de louro. O homem velho com um curativo sobre o olho esquerdo. Saio. Venho caminhando pelas ruas, mais forte. Vou refazendo aquele percurso conhecido, que atravessava no nosso carro velho, cor vinho-metálico. O bar, a sorveteria, os correios, a padaria chic. Agora sou sozinha de novo. Preciso saber cuidar de mim. Preciso aprender a respirar. Todos os dias.

domingo, 23 de novembro de 2014

Em terra, uma história

Em terra a jornada também seria longa e acidentada. Começou a caminhar bem devagar. Seus pés estavam inchados. Usava umas botas quando estava no mar, mas numa das tempestades elas tinham naufragado também. A camisa muito rasgada tinha um grande talho na altura do seio esquerdo. E ela não usava sutiã. Arrumou-se como pode. Para pedir ajuda lá no vilarejo precisava estar pelo menos com aparência de uma pessoa normal. Mas normal não estava há muito tempo. Não tinha como explicar aquela viagem sem rumo. A viagem podia ser um delírio dela. Pensou em inventar uma história, gostava delas. “Travessias. Conhecem? Fica na divisa do Sergipe com Alagoas, vila pequena quase desconhecida, que uns amigos tinham indicado. Lugar maravilhoso, praias desertas, apenas uma pousada de belgas onde ficaram hospedados. Foi passar férias com o marido, saíram para um passeio breve, numa pequena embarcação. Era julho, no dia de seu aniversário de casamento. Tudo ia bem até que se desentenderam por uma bobagem, ciúmes. Passaram a noite brigados, deitados na cama sem se falar, um virado pra baixo e outro pra cima. Coisa raríssima. No dia seguinte ele sugeriu um passeio, queria que tudo ficasse bem, ela era a mulher da sua vida, queria viver com ela até ficarem velhinhos, todas essas coisas, etc. Ela aceitou as pazes, dependia dele pra tudo. Nem podia imaginar o que seria viver sem aquela pessoa. Saíram felizes, reconciliados. O dia bonito, ameno. Eles se abraçando, carinhosos. Como era bom estar ali. Estavam sem coletes. Pra quê? Nada podia acontecer. No meio do caminho ele disse que precisava contar uma coisa. Começou bem devagar, assim como se fosse algo bem natural. Sem olhar nos olhos dela. Estranho. Corpo meio afastado. Palavras que se formavam em câmera lenta nos seus lábios. Resumindo: tinha outra e queria ficar com ela. Preciso viver outra história. Era uma moça bacana, sabe? Artista também. Pintava gaiolas com pássaros dentro. Nossa que coisa horrível, pensou. Pássaro em gaiola nem em pintura. Ela só pensou. Ouviu até o fim. Engoliu o sempre choro. Depois disse que tudo bem. Entendia. A vida é injusta mesmo. E depois ela também tinha outros planos. Eles estavam se atrapalhando. Achando que podiam viver só de amor. Não, não se pode. Precisava dar mais certo na vida, fazer planos, voltar a ganhar dinheiro, viajar, fazer um  curso fora, estudar francês. Aparentava compreensão, mas um mundo inteiro passava pela sua cabeça. Vontade de esganar essa pessoa que agora desconhecia. Como é que pode? Aquela voz mansa. Aquelas promessas. Aquele amor esparramado. Sabe, ela apareceu na minha vida. Não tinha planejado. Queria mesmo era ficar contigo. Juro. Vamos fazer um ritual bem bonito. Continuo te amando. Eu também. Sempre. Ainda. Sempre ainda. De repente o choro veio, vazou dos seus olhos e com ele todos os ódios. Ele impassível. Ela ficou atrás de mim, sabe? Não tivemos nada ainda. Ah tá...até eu, que sou mais boba, posso acreditar nisso? O que isso importa também. Preservo seus arrepios. Foda-se. Falou pausadamente. Colocou o colete. Amarrou bem. Depois ficou em pé no barco. Ele se assustou. Quando se levantou para intervir ela o empurrou com força. Ele caiu.  Não sabia nadar. Remou rápido, o mais rápido que sua raiva permitiu. Ele ficou. Tão bonito. Ela nem olhou pra trás.”

Riu como se fosse louca. Se fosse. Ficou assustada. Não sabia como aquela história saíra de sua cabeça. Nunca faria isso. Talvez fosse a fome ou o cansaço. Essa versão levaria para a terapia. Vou escrever, quando tiver papel e caneta. Mas guardaria só pra ela. Para os outros diria “Fui passar férias com meu namorado, saímos para um passeio breve, numa pequena embarcação. Era julho, no dia de nosso aniversário de casamento. Nunca tinham navegado antes, mas o mar estava calmo e tudo ia bem até que numa onda mais forte ele foi atingido e caiu no mar. Porque ele não colocara o colete, tão teimoso? Tentou salvá-lo. Mas ele era grande apesar de magro. Fez o que pode. Ficou arrasada. Gostava tanto dele. Mas tinha que lutar pra sobreviver também”. Era ele ou ela.


E assim, inventando, venceria as léguas pela areia da praia, anoitecida. Talvez acreditassem nela. E agora já estava mais próxima das luzes que viu quando deu naquele lugar.

sábado, 15 de novembro de 2014

Diário de Araxá (ou como nasceu Domingo)

4 de novembro
Acordo cedo para terminar de arrumar as coisas. Domingo já quer nascer. Ansiedade e medo. Vou com minha parceira de trabalho, mulher que divide comigo inquietações, de vida, amor e arte. Vamos fazer um ensaio do que temos feito em encontros únicos. Embalei fotos, pequenos objetos, um tapete da sala, um espelho. Denise faz o mesmo na casa dela, ajuda em tudo, se desdobra em tantas e tantas funções, sem nenhuma reserva. Saímos por volta das 10h30 de Belo Horizonte. Seis longas horas de viagem, com parada para almoço na beira da estrada. Tive fome, comi como uma caminhoneira. Dia findando quando chegamos.  Encontro carinho e o amigo que nos leva a essa aventura: Juarez.(Sempre grata a você, que nos deu coragem para arriscar...) Estranho um pouco tudo, estranho a cama, durmo mal. Gosto é do dia. Que amanheça!

5 de novembro
Depois do café farto de hotel fomos conhecer a casa. A casa é bonita. Uma das mais antigas da cidade. Vazia. Forte, grande, mas parece aberta à nossa loucura. (Quantas vidas, festas, choros passaram por ela?) Casa que vai se mostrando, vai deixando a gente entrar. Aos poucos, intuição nos guiando, vamos arrumando tudo. Dando vida. O vermelho emerge. Nas toalhas, na boneca da parede, nas almofadas. O sangue emerge. No lado de fora a grama está viçosa, árvores se apresentam. Procuro por terra. Preciso cavar. Encontro um lugar remexido. Ali enterrarei algo precioso. A calma vem. Todos são tão bons conosco. E por hoje é só. Precisa ser devagar. O I Ching aconselha modéstia. Teremos.

6 de novembro
Fico sozinha com ela. Nela. Peço licença. Nova morada. Ensaio em todos os cantos. Experimento. Gosto dessa liberdade. O trabalho me alimenta e cura. Tomara que alimente e cure outras pessoas também. Denise chega e ensaiamos juntas. Choramos no final. Quase sempre. No hotel a piscina aquecida nos acolhe. Água, eu preciso.

7  de novembro
Domingo nasce. Para mim e para os outros. Um dia antes do combinado. Foi bom: receber os olhares, doar as palavras e gestos. Gosto das coisas que tomam vida e nos levam. Domingo é assim. Urgente desde que quis existir. Recebemos tanto em troca: sorrisos, abraços, lágrimas. Tomamos café juntos na cozinha de azulejos azuis. A reação que mais me impressionou foi de uma jovem negra e de olhar muito doce. Pensei que estava falando para mulheres maduras. Mas ela ficou emocionada. Disse palavras tão delicadas. A arte nos salva.

8 de novembro
(Quase não consigo dormir. Ficamos conversando no escuro até tarde. Estava feliz e excitada.)

Preparo-me desde cedo. Fico sozinha. Em silêncio. Passo textos numa área do hotel, numa grama bem verdinha e aparada. Não almoço. Preciso ter fome para atuar. Na casa arrumamos coisas. Faço massa de pão de queijo. (Quase colocamos fogo no forno. Mas tudo fica resolvido a tempo, com os anjos da guarda de Araxá: Marcinha, Wlad, Gigi, Carol...)
Tenho ajuda o tempo todo da Dedê, assim comecei a chamar carinhosamente minha querida Denise, amiga e parceira. Encontro muito feliz. A primeira pessoa em quem pensei quando, do meio do meu desespero, senti que precisava me parir de novo. Ela veio e ficou. Estamos juntas em cena.
Ligo pra minha mãe. Peço sua benção. Falo com as minhas irmãs. Mulheres importantes na minha vida. A chuva começa. Eu começo. Ela para. Eu continuo. Foi um turbilhão. Renasce Domingo.
Na conversa, com café e pães de queijo, refaço a ideia de fazer só para mulheres. Os homens foram tão generosos! E foi bom ouvir cada um, cada uma, na intimidade da cozinha, que já era um pouco nossa. Cada história e semelhança. Dividir, somar.

Agora estou com um vazio de Domingo. Desejo avidamente os que virão.

domingo, 2 de novembro de 2014

o ensaio



e então aquilo que parecia distante de se realizar toma forma.
primeiro os escritos.
depois o trauma.
depois a tentativa de cura.
o teatro me salva.
de mim e do mundo.
injusto.
a vida por vezes é assim.
e nem por isso deve-se lamentar.
a vida é bonita de se viver também.
se com ela navegamos.

depois de um sonho triste começo a ensaiar sozinha.
mas tenho comigo uma parceira, outra mulher.
uma amiga que aceitou dividir comigo essa jornada.
desde o primeiro momento.
e tantas outras mulheres (e homens também).
que se afetam pelo meu olhar e me fazem persistir.

encontros particulares e íntimos moldam o que antes era só impulso.
o cenário é a casa.
não poderia ser outro.
é a terra..
o mato.
a janela.
a cozinha.
o espelho.
o figurino é a roupa.
não poderia ser outro.
o vestido florido.
o vestido de casamento.
a mortalha de luto (que ainda não foi costurada).
os objetos são os que me rodeiam.
não poderiam ser outros.
as garrafas de cerveja que transformo em cacos.
os presentes que enterro.
a mangueira que molha as árvores.
a fala é o que sai de dentro.
não poderia ser outra.
palavras duras e doces.
lembranças boas e amargas.
vislumbres do que está por vir.

na cozinha vou preparar a comida e compartilhar com quem vier.
tragam as bebidas.

Domingo vai nascer.
aos poucos.
por hora é um pedaço que ofereço.

ps: Obrigada, Denise. Gratidão pelo encontro.
      Obrigada, Juarez. Gratidão pelo convite.





sábado, 25 de outubro de 2014

Sem fim

E quando você acha que fecha

De novo se abre a ferida
E sangra como se fosse hoje
E dói como se fosse sempre
E machuca como se fosse nova

E quando você acha que encerra
De novo se faz a página
E fere como se fosse ferro
E confunde como se fosse sonho
E ilude como se fosse mágica.

E quando você acha que acaba
De novo encontra o desejo
E queima como se fosse brasa
E arrepia como se fosse vento
E inunda como se fosse mar.

E quando você acha que sepulta  
De novo se levanta o morto
E assombra como se fosse vivo
E vaga como se fosse sombra
E paira como se fosse nuvem.

E quando você acha que acerta
De novo encontra a dúvida.
E atormenta como se fosse certa
E encara como se fosse nova
E mente como se fosse a única.

Quando você acha que chegou ao fundo
Ainda tem um palmo e meio de terra.

domingo, 19 de outubro de 2014

Noventa dias de tormenta


Foram três meses até chegar ali. Estaria feliz se não fosse náufraga. 

Lembrava-se apenas de ter sido lançada ao oceano no dia 7 de julho de 2014. Não sabia se em sonho ou delírio. De repente se viu no mar, com embarcação frágil, vela tosca e dois remos. Não sabia remar, nem velejar, muito menos entendia porque estava ali. Mas estava. Sem água doce, nem comida. Sozinha com seu medo e sua coragem. Chorava de tristeza, tinha lembranças dispersas, já não sabia de onde vinha. Vinha de um acidente? Não se lembrava de nada. E a nova lida não dava tempo de se perder em reminiscências.

Logo, ainda sem entender de todo a gravidade, com sua dureza capricorniana começou a traçar um plano. Preciso comer, preciso remar, preciso dormir, preciso chegar, preciso viver. Repetia essas palavras como um mantra. Começou a içar a vela, com muito custo, pois era pesada apesar de pequena, nunca teve muita força nos braços. Um bom vento soprava e viu isso como um sinal. Junto remava, desajeitadamente. A ação do vento e de seus braços podiam levá-la longe, pensava. Mas onde? Nem bússola ou qualquer instrumento de navegação. Apenas o sol que se punha, era seu norte. No fim do primeiro dia apagou exausta sobre o pequeno banco de madeira e dormiu, sem ver o céu de lua enorme. Acordou faminta. Procurou nos bolsos das calças, na esperança de encontrar algo. Com alegria descobriu uma bala de hortelã e um resto de biscoito mole, doce, do pavê que fizera uns dias antes. Ah! Sim! Numa festa em sua casa, com amigos, fizera um pavê, daqueles antigos, receita da avó. Agora se lembrara.

Num átimo peixes prateados saltaram pra dentro do barco, ela conseguiu pegar dois. Os japoneses comem peixe cru, lembrou-se. Com um misto de fome e nojo abriu o peixe com as mãos, arrancou as vísceras e comeu a carne, rosada e amarga. Por hoje seria só isso. Mas a sede era imensa. Bebeu água salgada. Enrolou a camisa clara em volta do rosto, para se proteger. Nuvens escuras anunciavam tempestade.  Atou-se ao barco com um cinto de pano, que tinha em volta da blusa. Mas antes procurou algum recipiente para juntar água. Achou uma lata velha, num canto, quase enferrujada.  E desceu as velas.  A chuva veio forte. Ondas varriam o barquinho, que resistia por milagre. Por sorte não durou muito e agora tinha água para beber.

Sabia que ia demorar naquele modo novo de viver. Consolou-se cantando bem alto quando a tarde caía. Assim passaram-se dias e noites e dias e mais noites. Nem sabia quantas. Quando era vencida pelo cansaço dormia exausta, sonhava. Via uma casa amarela, com árvores grandes em volta, via alguém de longe,  não identificava seu rosto. Ele arrumava coisas no quintal. Tinha uma voz mansa e dizia palavras bonitas. Logo o sol forte queimava sua pele e a luta recomeçava.

Nada de terra, nem outros barcos. Apenas aquele mar imenso, chamando para as profundezas. Talvez fosse melhor se deixar ir, como uma sereia torta e cansada, para dentro dele. Seu peito doía tanto. Era só um buraco, uma falta e um desconhecimento de tudo. Em toda sua vida nunca tinha sentido isso. Vai passar, vai passar. Mas não. Era grande e funda aquela nova sensação. O que fazia ali? Tentava se agarrar em alguma imagem, não queria ceder assim. Um vento forte encrespou o mar e uma onda partiu o mastro que caiu quase sobre ela. Sem vela, tudo ia ficar mais difícil. A cada golpe, sentia que precisava reagir. Sua garganta tinha desejos de dizer coisas. E vociferava contra tudo e todos. Quem? Depois remou com energia, sem rumo, mas avançou. Buscava terra, mas terra perto não havia.

Aprendeu a pegar peixes com uma ponta da madeira do mastro que se partira. E outras chuvas garantiram água, colhida na lata e sorvida com parcimônia. Quase se acostumara àquilo. E as noites eram esplêndidas. A natureza oprimia de tão bela. Soberana. Mais calma rezava e pedia proteção. E agradecia por estar ali, apesar de tudo. Ficava de olhos abertos deixando o vento e o acaso levar a embarcação. Dormia pouco com medo de algum peixe grande ou onda que virasse o barco. Mas sonhava. Eram sonhos confusos, com tantas imagens e rostos que mal reconhecia. Via crianças, três. Seus filhos? Via um teatro grande, luzes apagadas. Via um casal sorridente, seus pais? Um vestido branco secando ao sol. Uma senhora velhinha que a abraçava.

Depois de um longo tempo à deriva adoeceu. Teve febres e calafrios.  Dores fortes nos rins, que subia pelas costas, enjôos.  Enrolou-se no tecido grosso da vela. Desistisse? Não. Vou reagir, vou reagir. Preciso viver, preciso remar, preciso... Nem sabia mais do que precisava. Nada mais importava. E dormiu um sono profundo. Viu sua imagem como em filme. Irmã mais velha de cinco irmãos, pais poetas, infância no interior. Casou-se cedo, com um homem bom, teve três filhos, dois meninos e uma menina. Construiu casa. Fez-se artista. Era melancólica. Gostava de sol. Um dia foi morar noutra casa, sozinha. Morou em terras distantes, equatoriais. Lembrou-se de tanta luta, tanta angústia, da solidão, da esperança. Do encontro: amor-oceano. Perigoso e profundo. A casa, o mar, o banho de mangueira, a cachoeira, as promessas, o café da manhã, tapioca, cuscuz, cerveja, lua, casa, janela, cama, café, beijo, sono, corpo, música, viagem. Dúvida, medo.  Lembrou-se de cada palavra e gesto. Lembrou-se do fim. Explosão, choro, lágrima, raiva, dor, tristeza. Naufrágio. Agora entendia porque estava ali.

Acordou com um tranco forte no fundo do barco. Pensou no pior. Era um banco de areia. Desceu, trôpega. Em alguns passos, pés dentro d’água morna, estava em terra firme. Olhou mais uma vez o barco, exausto, exausta,  tão machucado quanto ela. Sentou-se na areia, chorando pegou conchas e sorriu para uma pequena estrela do mar. Sobrevivera. Longe dali avistou luzes. Vou descansar um pouco, pensou. Depois iniciaria nova etapa.