domingo, 21 de dezembro de 2014

7 dias


 Domingo. Chego atrasada para o encontro com minha irmã que vai me ajudar a comprar uma roupa. Tomamos um café no shopping lotado. Tenho dificuldades com comprar nem que seja uma coisa à toa. Costumo desistir no meio. Consuelo me faz experimentar muitos vestidos, que pacientemente escolhe. Deixo alguns reservados e prometo voltar. Mas na verdade não gostei de quase nenhum. Na segunda loja a maratona recomeça. Visto um macacão estampado. Isso é estampa de bicho?. Ah...sim , mas bem discreta. Mas eu sou contra estampas de bicho. Ah...mas ficou lindo! É acho que vou levar. Preciso experimentar coisas novas. Depois parece um vestido com flores e ramagens. Acho que esse ficou melhor. Leva os dois. Não posso. Tô sem grana. Vai levar, sim.  Ajudo a pagar. Parcela de 6 vezes? Sim. Minha mãe a outra irmã chegam e me convencem. Ficou ótimo! Saio com a sacola da loja chic. Há quanto tempo não fazia isso. Até gostei. Sentamos para almoçar juntas. Carne. Não costumo comer muita carne, mas preciso aprender a fazer coisas que não faço. Vai me fazer bem. Tomamos chope. Combinamos coisas do Natal. Depois vou ao encontro de amigos, de táxi. Comidas de terras do norte, maniçoba, tacacá, mousse de bacuri. Tantos sabores e carinhos, na casa da Gigi, nova querida.  Vinho. Cigarros fumados na área de serviço. Risadas. Quase feliz. Volto tarde para casa, trocando impressões com minha parceira de vida e trabalho, Denise.

Segunda. Dia de trabalho, rescaldo do ano, correndo atrás de grana, pagando contas.

Terça. Levo minha mãe na terapia. Reencontro os olhos verdes da moça que nos atende. Tanta doçura e compreensão. Depois do almoço vou a uma consulta de tarô. Minha mãe acha o máximo. Ela vai adivinhar seu futuro? Não, mãe. Os oráculos leem nosso inconsciente. Apenas. Quatro horas de conversa com uma maga, minha vida dos últimos 5 anos passa em revista. Lembro-me da primeira carta no centro da mandala que se forma. The Devil. Você já perdeu muita energia com isso. Passou. Foi bom, mas terminou. Agora os caminhos estão se abrindo de novo. Novo tempo, novas parcerias, nova vida. Saio com a cabeça cheia de tantas imagens e palavras. A energia se renova. Vou ao encontro da filha, já impaciente com minha demora. Duas vezes shopping em uma semana. Estou mudada mesmo. Ganho uma sandália dourada. Saltos vão me fazer bem, deixar essa mulher mais confiante. Depois de chope e tira-gosto num lugar lotado e com mulheres, que histéricas, comemoravam o Natal da firma, saímos. Na rua corremos para pegar o 4403, quase no sinal. Que sorte!  Em casa somos surpreendidas por quatro filhotes de gato no quintal. Coloco leite e comida, mas deixo-os do lado de fora, com uma caixa de papelão para dormirem.

Quarta. Depois do café com a filha resolvo colocar os gatinhos dentro de casa, no meu quarto e banheiro. Riva, o gato que acolhi uns dois meses antes, está agitado. Vou ter que achar um lar para eles. Começo uma campanha com fotos na internet. Ligo para mil lugares. Gatos nessa época? Difícil. À noite caio na besteira de vasculhar fotos e vídeos. Dói de novo. Divido um ravióli com a filha, que chega do trabalho. Mas não sinto muito o gosto. A asma volta com força, quase não durmo. O quarto com cheiro dos gatos ajudou. Uso a bombinha muitas vezes. As mulheres são mesmo loucas.

Quinta. Faxina no galpão. Quase não consigo fazer nada. Limpo as cadeiras junto com a moça. Compro remédios. Vou parar de fumar. Juro. Não almoço. Saio para ir ao banco. Depois fico em casa. A filha avisa que vai sair com as amigas. Não devo ficar aqui. Ligo para um amigo e vamos ao cinema. Hobbit, 3D, no shopping. Três vezes em uma semana. Foi divertido. Nas cenas de amor, chorei. Sou mesmo uma manteiga derretida.

Sexta. Consegui dormir bem. Saio cedo para a terapia. As mulheres que me ajudam a dar conta da vida. Levo um livro, “A dor de amar”. Leio um trecho para ela. Esse alguém que te ouve e refaz junto um percurso. Sinto como quando andamos de bicicleta com rodinhas atrás, até aprender a se equilibrar. Despeço-me dela e agradeço. Você está sendo muito importante para mim. A tarde ajudo minha nora nas arrumações. È bom estar em movimento. Ela é doce e conversamos, enquanto executamos as tarefas ditas femininas. Volto para casa. Estou mais animada. Um dos gatinhos consegue um novo lar. O ano do cavalo quase me atropelou, mas no finzinho dele consigo montá-lo e dizer: agora vou com você.

Sábado. Durmo sem colocar o despertador. Vou com a filha fazer as unhas. Vermelhas. Há quanto tempo não fazia isso. De longe me vejo no espelho do salão. Toda vez que tento ficar bonita sua lembrança volta. Respiro, respiro. Vai passar. De volta à casa as tarefas domésticas me mantêm ocupada. Depois ganho maquiagem pelas mãos da filha. Subo a rua. Chego cheia de coisas na sacola. Beijo o filho, passo sua camisa. Convidados chegando, mesa posta, música. Família. Comida. Alegria. Hora do brinde. Procuro meu antigo companheiro, pai dos meus filhos. Peço para dar o braço a ele. Ficamos assim em silêncio. E assim assistimos à cena. Cartas lindas de amor trocadas pelo casal que se une. Lágrimas saltam dos olhos. Abraços, bênçãos. Que deus proteja o amor de vocês. A festa continua, mais solta. Danço. Bebo. Por dentro agradeço. São tantos que nos cercam. Rose e sua família, pessoas tão especiais. Minha mãe, a rainha. Meus filhos, amores. Seus amores, pessoas bonitas. Meus irmãos, sobrinhos, meus cunhados, primos. Tantas histórias. A família que vem do planalto. Tão fácil gostar dela. Nossos amigos. O garçom jovem que serve as bebidas. Tudo nos afeta. Tudo é afeto.


Domingo. Dia de descanso e recomeço. Que a última semana do ano seja leve.

domingo, 14 de dezembro de 2014

A queda



Saio pelo terceiro dia seguido para caminhar. Retomo assim algum exercício físico, para organizar corpo e a cabeça. Também por recomendações médicas. Bom pra asma, bom para ansiedade. Tantas desculpas serviram para que eu parasse. Todas furadas. Mas já me conheço o suficiente. Enquanto a necessidade extrema de endorfina  não bate a porta vou me enrolando. Apesar de gostar de muitas atividades. Experimentei  várias. Gosto das que juntam corpo e mente, como t’ai chi e ioga. Mas, por incrível que pareça, gostei de musculação. Dos aeróbicos gosto de nadar, correr.  E andar. O mais simples de todos. O mais próximo da nossa “estrada”.
Coloco meu tênis furado, bermuda presa com alfinete na cintura e uma camiseta. Passo filtro solar, não posso mais abusar do sol. Que pena. Saio antes de 7, cada vez acordo mais cedo, a noite não tem sido boa companheira. Caminho por uma avenida próxima de casa. Poderia ser bonita e bem cuidada, mas não é. O passeio é largo, até chegar perto do Parque Ecológico são uns dois quilômetros. Ida e volta: quatro. Costumo fazer em uns 40 minutos. No percurso vou tentando me convencer de que, sim, está tudo bem. O pior já passou. O ano acabando, algumas vitórias, fechamento de processos, natal em sítio, retiro espiritual no ano novo, promessa de mar no verão. Meu andar vai ficando confiante, abro os ombros e deixo meu aspecto de cansada para trás. Inspiro com força o ar. Essa asma idiota precisa acabar. Você precisa mesmo parar de fumar, sua louca.
Quase perto do retorno começo a organizar o que devo dizer na terapia, contar do turbilhão da semana anterior: estreia, encontro, crise respiratória, escrita, dúvida, choro, família. Pensava já com distância, com discernimento. No final do passeio, perto de um restaurante que frequentava e que se chama agora Prainha, faço uma curva e volto. O passeio apresenta um ligeiro aclive. E em segundos, por uma pisada em falso, escorregão, tontura, caio. Não foi pequeno tombo não. Vim batendo todas as partes dos braços e pernas no muro até chegar ao chão. E bater a cabeça no cimento. Alguém de um carro que estava parado no sinal pergunta se preciso de ajuda. Não vejo seu rosto, mas que digo que não, obrigada. Consigo levantar. A perna esquerda sangra um pouco, a cabeça tem um enorme galo, os ante-braços ficaram raspados. Tudo me dói. Volto a caminhar, vacilante. As lágrimas escorrem.  Desabo. Todas as minhas novas crenças se vão. Fico a me lamentar, começo a falar sozinha. Culpo o mundo pela minha queda. A vida é injusta.Tenho escutado isso de tantas pessoas. E não perco essa mania de querer explicar tudo que me acontece de maneira simbólica. Metaforicamente. (Isso é cansativo, bem sei. Mas como evitar? Se tudo que faço tem a ver com significar?). Em casa, um pouco mais refeita, coloco gelo nos pontos doloridos, a sensação de anestesia é boa. O gato vem me consolar. Esse gatinho entende tudo melhor que eu. Vou ficar com alguns sinais roxos, pele lanhada, intumescências, mas sumirão logo.
Dias depois, em casa de minha mãe, falo com ela do tombo. Mostro as marcas.  Ela me acarinha. (Ah! as mães...) E fica querendo saber como foi. Solidária, tenta mais uma vez explicar o dia em que caiu no quarto e fissurou uma costela, relembrar o que tinha acontecido. Descreve tudo minuciosamente, mas não encontra a resposta. Isso tornou-se quase uma obsessão para ela. Respiro fundo. Mãe, digo com paciência, queda não tem explicação. Se a gente soubesse o porquê não aconteceria.

Simples demais. Sem metáforas, por favor.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Um dia, o gato


Acordo cedo e tomo café com a filha. O dia promete muito trabalho. Teatro é coisa que cansa, bem sei. Já pensei em desistir, mas o tempo passou e não encontrei nada que me motivasse tanto. Nem que fosse tão (im)permanente como a vida. Deve ser por isso que prossegui.
Escuto um ruído constante, parece um pio de alguma ave, dessas que frequentam o quintal cheio de mato e sementes, abundantes pelas chuvas dos últimos dias. Fico trabalhando, sem poder me deslindar do que faço, mas com o ouvido atento. Cessa. Depois de um tempo recomeça. O que seria? Parece um pedido de ajuda. Os intervalos vão ficando menores. Enfim levanto, um pouco contrariada. No meio do mato úmido, próximo ao portão, um filhote de gato, magro, com um olho machucado, mia agora sem parar. Gosto de gatos. Mas confesso: fico irritada. Alguém jogou aquele pobrezinho ali, talvez passando pelo cano de leitura da Copasa. Volto à cozinha e pego uns pedaços de pão integral e molho com água. Leite não tinha. Ele come um pouco. Volto ao trabalho, sem concentração. Logo preciso sair. Não sei o que fazer com ele, tempo curto pra cuidar de alguém. E as minhas últimas tentativas de cuidar, não valeram muito a pena. Ou valeram? Cuidado demais sufoca. Bem sei. Disparo um comando para que minha cabeça pare com aquelas ideias, louca buscando respostas onde não há. Penso que o gatinho poderia ir embora, por conta própria, passando pelo vão do portão, que estava se enferrujando sem pintura. Saio um pouco culpada, essa nova pessoa, mais egoísta, custa a combinar comigo. Cuide de si, escuto sempre. Então, gato, sinto muito. Vou ter que te deixar entregue à própria sorte.
Passo o dia na lida, passando por muitos problemas e lugares, como todos os mortais. À noite, entre companheiros, falo dele. Eles me encorajam a ter um animal. Vai ser bom pra você. Mas eu tenho asma. Eles são carinhosos, divertidos. Minha filha não gosta de gatos. É fácil de cuidar. Não. Agora não. Chego bem tarde, meus amigos me deixam de carro no portão. Do lado de fora ouvem-se os miados, altos. Sim, o gato sobrevivera. Abro o portão, todos olham. Pronto, agora com testemunhas, não tenho como escapar. Pego o gato sem jeito, há quanto tempo não pegava em um? Nem parecia aquela garota da foto que, com uns dois anos, abraçava um gato angorá enorme, no quintal da sua avó. Em casa arrumo uma caixa de sapato, uma camisa velha e ensino que ele fique ali. Acho um resto de iogurte na geladeira, sim a casa andava fraca de comida, andei mesmo sem apetite. Misturo um pouco d’água e coloco num pote de margarina. O gatinho gosta. Toma com sofreguidão. Seu olho muito vermelho e melado, pode ser uma conjuntivite. Ou ele pode ser cego. Isso me enche de compaixão. Se ele for mesmo cego como posso deixá-lo? Pelo celular conto à filha, que estava fora, a novidade. Ela não demonstra nenhum interesse por um gato em nossa casa. Preocupada vou dormir e deixo que ele fique na sala, com a luz da cozinha acesa. Ele se comporta muito bem, sem nem um pio, digo, miado. Dormiu na caixinha que arrumei. Fico feliz, entendo alguma coisa de gatos. Já tive outros, há muito tempo, criados fora de casa. No outro dia vou à farmácia e pergunto a moça o que posso usar no olho de um gato. Ela me vende um frasco de soro fisiológico. Mas alerta: se for conjuntivite tem que usar um colírio com antibiótico. Em casa ele deixa que eu limpe seus olhos, até gosta, parece receber um carinho. Compro leite e ração, da melhor marca. Gatos custam caro. Bem sei. No terceiro dia, com pouca melhora da inflamação, consigo marcar uma veterinária, Dra. Marlene. Ele é levado dentro daquelas maletas. Já está bem esperto, foge quando vou procurá-lo. Volta de lá medicado, e com uma dose de penicilina para gripe. Notei mesmo que ele espirrava. Como a gente. Compro o colírio. Compro areia para suas necessidades. Potinho para ração, água e leite. Já tem nome, Riva. Nome de personagem, claro. O que seria da gente sem a ficção. Pelo telefone, a filha alerta que não quer gato quando voltar. Quem é a mãe mesmo? Trocamos de papéis, muitas vezes. Ela me dá muitos conselhos. De mãe para filha. Vou pensando no que faço com Riva, enquanto me afeiçoo a ele. Anda por todos os lugares, vai tomando conta de tudo. Tapetes, canetas, roupas, tudo vira brinquedo. Diversão das noites solitárias. O olho ferido se abre, me olha. A filha chega. Riva, dono da casa. Ela reage bem. Embora o combinado seja arranjar um novo lar para o hóspede. Com gente em casa Riva fica muito feliz. Inventa tanta maluquice. Usos estranhos para coisas banais. A gente acaba dando risada junto. O que tem de bicho na gente ainda? Muito pouco. Eles apenas vivem sua natureza, Clarice que o diga. E o assunto delicado vai ficando pra depois. E depois. Um dia chego em casa e a filha relata suas aventuras com o gato. Andaram até brincando juntos. Estão se entendendo.

Nem preciso dizer que Riva ficou. Enquanto escrevo ele se enfia debaixo do tapete, vem pro meu colo, pisa no teclado, dorme dentro de um cesto, tenta matar aleluias que caem do teto. E muitas vezes, quieto, olha para o nada. Os estados mudam muito rápido. Isso me impressiona. Prontidão e serenidade se equilibram. Algo em mim é acionado quando estamos próximos. Uma calma. Um aceitar. Um reagir. Preciso dele agora. Seja bem vindo, Riva.

domingo, 30 de novembro de 2014

Oxigênio



 Acorda assustada às 4h30 da manhã. Falta-lhe o ar. Os pulmões cheios. A tristeza ainda não foi embora então? Como demora. A asma é assim: ronda, ronda e quando se instala é pra valer. Desde criança soube disso. Quem mandou ficar fumando cigarros, quatro por dia, como se fosse uma garota. Bem feito! A chiadeira, felino no peito, cresce na madrugada. Cama fria, sem carinho, chuva lá fora, umedecendo a alma. E aqui o desespero pelo ar. Quanto mais se puxa menos entra. Então ela se levanta, pensa num banho quente porque o vapor pode ajudar. Pelo menos tinha uma suíte, ideia que vingara porque queria ter privacidade com seu bem. Agora pra que servia? Besteira esses luxos. Serve, não serve. Mania de pensar nos contrários, negar o que desejou. Era um exercício necessário agora. (Depois refaço tudo, para o bem de todos, na minha cabeça doida sou eu). Chuveiro com água pelando, vidro do box, outro luxinho, embaçado. Volta pra cama depois de se enxugar, os cabelos molharam um pouco. Encosta-se nos dois travesseiros, inquieta. Usa a primeira vez a bombinha. Dois jatos. Droga que alivia. Não faz efeito. Sua ansiedade não deixa. Resolve tomar chá de hortelã, com um pouco de mel. Toma bem quente. Melhora um  pouco. Minutos. Mas logo a falta, a falta, sempre essa falta. De ar. Será que eu posso morrer assim? Sentiu medo. A filha dormia ao lado, cansada de uma viagem longa. Não teve coragem de acordá-la. Vai passar. Fixa o olhar nos azulejos da cozinha. Eles. Resolve ir ao posto médico. Tinha um plano particular, mas perdera, sem grana pra pagar. Usa de novo a bombinha. Só mais essa vez. Liga para o ponto de táxi. Não atendem. Vai andando devagar. Sobe a rua cumprida. Passa perto do supermercado, lembra-se das compras que faziam juntos, vinho, cerveja, comida. Tudo era motivo para. Uma alegria de compartilhar. Era bom. Era. Chega ofegante na avenida. Mais um pouco e se apresenta na janelinha do posto. Ficha. Depois passa pela triagem e força um pouco a falta de ar. A mulher coloca um medidor no seu dedo indicador e garante: ventilação normal. Pulseirinha verde. Ah...quer dizer que estou boa? Fala com ironia. A moça responde com paciência: não foi isso que eu quis dizer. Passa para outro local, parece um depósito. Telhas metálicas, tapumes de madeirite, um container servindo de consultório. Pensa um pouco nas dificuldades de quem mora longe do centro, no descaso com as pessoas menos favorecidas. Desanimada, chora. Alguns olham. Azar, pensa. Sou assim. Depois de uns 15 minutos escuta seu nome. Maria Aparecida.

Apresento meus olhos marejados e minha insuficiência respiratória à Dra. Carla, tão nova. Ela escuta. Desabo, deixo as lágrimas correrem no rosto abatido. Ela pergunta se aconteceu alguma coisa. Eu digo que é difícil passar mal quando se está sozinha. Ela segura minha mão e diz: eu estou aqui. Aconselha que fique longe de poeira, animais, problemas demais. Seus olhos se parecem com os do gatinho que vive em casa há uma semana. (Hoje escreveria sobre ele, mas a asma foi mais urgente.) Olhos que me viram, no fundo. Com delicadeza escuta meu coração e os pulmões. O direito está mais tomado, diz. Prescreve uma inalação. Outra moça, enfermeira de sorriso doce, me ajuda. Só vejo mulheres atendendo no posto. A dedicação delas compensa a falta geral de condições do lugar. Coloco a máscara verde e consigo inspirar aquele ar úmido. Outra droga. Não choro mais. É preciso evitar esse vazamento público. Termina o tempo. Reanimada volto a ela e agradeço.

Arrumo os cabelos, presos num coque. Atravesso a sala de espera do posto, vejo aquelas pessoas. Penso no que adoece cada um. A menina pequena. A mulher de cabelos tingidos de louro. O homem velho com um curativo sobre o olho esquerdo. Saio. Venho caminhando pelas ruas, mais forte. Vou refazendo aquele percurso conhecido, que atravessava no nosso carro velho, cor vinho-metálico. O bar, a sorveteria, os correios, a padaria chic. Agora sou sozinha de novo. Preciso saber cuidar de mim. Preciso aprender a respirar. Todos os dias.

domingo, 23 de novembro de 2014

Em terra, uma história

Em terra a jornada também seria longa e acidentada. Começou a caminhar bem devagar. Seus pés estavam inchados. Usava umas botas quando estava no mar, mas numa das tempestades elas tinham naufragado também. A camisa muito rasgada tinha um grande talho na altura do seio esquerdo. E ela não usava sutiã. Arrumou-se como pode. Para pedir ajuda lá no vilarejo precisava estar pelo menos com aparência de uma pessoa normal. Mas normal não estava há muito tempo. Não tinha como explicar aquela viagem sem rumo. A viagem podia ser um delírio dela. Pensou em inventar uma história, gostava delas. “Travessias. Conhecem? Fica na divisa do Sergipe com Alagoas, vila pequena quase desconhecida, que uns amigos tinham indicado. Lugar maravilhoso, praias desertas, apenas uma pousada de belgas onde ficaram hospedados. Foi passar férias com o marido, saíram para um passeio breve, numa pequena embarcação. Era julho, no dia de seu aniversário de casamento. Tudo ia bem até que se desentenderam por uma bobagem, ciúmes. Passaram a noite brigados, deitados na cama sem se falar, um virado pra baixo e outro pra cima. Coisa raríssima. No dia seguinte ele sugeriu um passeio, queria que tudo ficasse bem, ela era a mulher da sua vida, queria viver com ela até ficarem velhinhos, todas essas coisas, etc. Ela aceitou as pazes, dependia dele pra tudo. Nem podia imaginar o que seria viver sem aquela pessoa. Saíram felizes, reconciliados. O dia bonito, ameno. Eles se abraçando, carinhosos. Como era bom estar ali. Estavam sem coletes. Pra quê? Nada podia acontecer. No meio do caminho ele disse que precisava contar uma coisa. Começou bem devagar, assim como se fosse algo bem natural. Sem olhar nos olhos dela. Estranho. Corpo meio afastado. Palavras que se formavam em câmera lenta nos seus lábios. Resumindo: tinha outra e queria ficar com ela. Preciso viver outra história. Era uma moça bacana, sabe? Artista também. Pintava gaiolas com pássaros dentro. Nossa que coisa horrível, pensou. Pássaro em gaiola nem em pintura. Ela só pensou. Ouviu até o fim. Engoliu o sempre choro. Depois disse que tudo bem. Entendia. A vida é injusta mesmo. E depois ela também tinha outros planos. Eles estavam se atrapalhando. Achando que podiam viver só de amor. Não, não se pode. Precisava dar mais certo na vida, fazer planos, voltar a ganhar dinheiro, viajar, fazer um  curso fora, estudar francês. Aparentava compreensão, mas um mundo inteiro passava pela sua cabeça. Vontade de esganar essa pessoa que agora desconhecia. Como é que pode? Aquela voz mansa. Aquelas promessas. Aquele amor esparramado. Sabe, ela apareceu na minha vida. Não tinha planejado. Queria mesmo era ficar contigo. Juro. Vamos fazer um ritual bem bonito. Continuo te amando. Eu também. Sempre. Ainda. Sempre ainda. De repente o choro veio, vazou dos seus olhos e com ele todos os ódios. Ele impassível. Ela ficou atrás de mim, sabe? Não tivemos nada ainda. Ah tá...até eu, que sou mais boba, posso acreditar nisso? O que isso importa também. Preservo seus arrepios. Foda-se. Falou pausadamente. Colocou o colete. Amarrou bem. Depois ficou em pé no barco. Ele se assustou. Quando se levantou para intervir ela o empurrou com força. Ele caiu.  Não sabia nadar. Remou rápido, o mais rápido que sua raiva permitiu. Ele ficou. Tão bonito. Ela nem olhou pra trás.”

Riu como se fosse louca. Se fosse. Ficou assustada. Não sabia como aquela história saíra de sua cabeça. Nunca faria isso. Talvez fosse a fome ou o cansaço. Essa versão levaria para a terapia. Vou escrever, quando tiver papel e caneta. Mas guardaria só pra ela. Para os outros diria “Fui passar férias com meu namorado, saímos para um passeio breve, numa pequena embarcação. Era julho, no dia de nosso aniversário de casamento. Nunca tinham navegado antes, mas o mar estava calmo e tudo ia bem até que numa onda mais forte ele foi atingido e caiu no mar. Porque ele não colocara o colete, tão teimoso? Tentou salvá-lo. Mas ele era grande apesar de magro. Fez o que pode. Ficou arrasada. Gostava tanto dele. Mas tinha que lutar pra sobreviver também”. Era ele ou ela.


E assim, inventando, venceria as léguas pela areia da praia, anoitecida. Talvez acreditassem nela. E agora já estava mais próxima das luzes que viu quando deu naquele lugar.

sábado, 15 de novembro de 2014

Diário de Araxá (ou como nasceu Domingo)

4 de novembro
Acordo cedo para terminar de arrumar as coisas. Domingo já quer nascer. Ansiedade e medo. Vou com minha parceira de trabalho, mulher que divide comigo inquietações, de vida, amor e arte. Vamos fazer um ensaio do que temos feito em encontros únicos. Embalei fotos, pequenos objetos, um tapete da sala, um espelho. Denise faz o mesmo na casa dela, ajuda em tudo, se desdobra em tantas e tantas funções, sem nenhuma reserva. Saímos por volta das 10h30 de Belo Horizonte. Seis longas horas de viagem, com parada para almoço na beira da estrada. Tive fome, comi como uma caminhoneira. Dia findando quando chegamos.  Encontro carinho e o amigo que nos leva a essa aventura: Juarez.(Sempre grata a você, que nos deu coragem para arriscar...) Estranho um pouco tudo, estranho a cama, durmo mal. Gosto é do dia. Que amanheça!

5 de novembro
Depois do café farto de hotel fomos conhecer a casa. A casa é bonita. Uma das mais antigas da cidade. Vazia. Forte, grande, mas parece aberta à nossa loucura. (Quantas vidas, festas, choros passaram por ela?) Casa que vai se mostrando, vai deixando a gente entrar. Aos poucos, intuição nos guiando, vamos arrumando tudo. Dando vida. O vermelho emerge. Nas toalhas, na boneca da parede, nas almofadas. O sangue emerge. No lado de fora a grama está viçosa, árvores se apresentam. Procuro por terra. Preciso cavar. Encontro um lugar remexido. Ali enterrarei algo precioso. A calma vem. Todos são tão bons conosco. E por hoje é só. Precisa ser devagar. O I Ching aconselha modéstia. Teremos.

6 de novembro
Fico sozinha com ela. Nela. Peço licença. Nova morada. Ensaio em todos os cantos. Experimento. Gosto dessa liberdade. O trabalho me alimenta e cura. Tomara que alimente e cure outras pessoas também. Denise chega e ensaiamos juntas. Choramos no final. Quase sempre. No hotel a piscina aquecida nos acolhe. Água, eu preciso.

7  de novembro
Domingo nasce. Para mim e para os outros. Um dia antes do combinado. Foi bom: receber os olhares, doar as palavras e gestos. Gosto das coisas que tomam vida e nos levam. Domingo é assim. Urgente desde que quis existir. Recebemos tanto em troca: sorrisos, abraços, lágrimas. Tomamos café juntos na cozinha de azulejos azuis. A reação que mais me impressionou foi de uma jovem negra e de olhar muito doce. Pensei que estava falando para mulheres maduras. Mas ela ficou emocionada. Disse palavras tão delicadas. A arte nos salva.

8 de novembro
(Quase não consigo dormir. Ficamos conversando no escuro até tarde. Estava feliz e excitada.)

Preparo-me desde cedo. Fico sozinha. Em silêncio. Passo textos numa área do hotel, numa grama bem verdinha e aparada. Não almoço. Preciso ter fome para atuar. Na casa arrumamos coisas. Faço massa de pão de queijo. (Quase colocamos fogo no forno. Mas tudo fica resolvido a tempo, com os anjos da guarda de Araxá: Marcinha, Wlad, Gigi, Carol...)
Tenho ajuda o tempo todo da Dedê, assim comecei a chamar carinhosamente minha querida Denise, amiga e parceira. Encontro muito feliz. A primeira pessoa em quem pensei quando, do meio do meu desespero, senti que precisava me parir de novo. Ela veio e ficou. Estamos juntas em cena.
Ligo pra minha mãe. Peço sua benção. Falo com as minhas irmãs. Mulheres importantes na minha vida. A chuva começa. Eu começo. Ela para. Eu continuo. Foi um turbilhão. Renasce Domingo.
Na conversa, com café e pães de queijo, refaço a ideia de fazer só para mulheres. Os homens foram tão generosos! E foi bom ouvir cada um, cada uma, na intimidade da cozinha, que já era um pouco nossa. Cada história e semelhança. Dividir, somar.

Agora estou com um vazio de Domingo. Desejo avidamente os que virão.

domingo, 2 de novembro de 2014

o ensaio



e então aquilo que parecia distante de se realizar toma forma.
primeiro os escritos.
depois o trauma.
depois a tentativa de cura.
o teatro me salva.
de mim e do mundo.
injusto.
a vida por vezes é assim.
e nem por isso deve-se lamentar.
a vida é bonita de se viver também.
se com ela navegamos.

depois de um sonho triste começo a ensaiar sozinha.
mas tenho comigo uma parceira, outra mulher.
uma amiga que aceitou dividir comigo essa jornada.
desde o primeiro momento.
e tantas outras mulheres (e homens também).
que se afetam pelo meu olhar e me fazem persistir.

encontros particulares e íntimos moldam o que antes era só impulso.
o cenário é a casa.
não poderia ser outro.
é a terra..
o mato.
a janela.
a cozinha.
o espelho.
o figurino é a roupa.
não poderia ser outro.
o vestido florido.
o vestido de casamento.
a mortalha de luto (que ainda não foi costurada).
os objetos são os que me rodeiam.
não poderiam ser outros.
as garrafas de cerveja que transformo em cacos.
os presentes que enterro.
a mangueira que molha as árvores.
a fala é o que sai de dentro.
não poderia ser outra.
palavras duras e doces.
lembranças boas e amargas.
vislumbres do que está por vir.

na cozinha vou preparar a comida e compartilhar com quem vier.
tragam as bebidas.

Domingo vai nascer.
aos poucos.
por hora é um pedaço que ofereço.

ps: Obrigada, Denise. Gratidão pelo encontro.
      Obrigada, Juarez. Gratidão pelo convite.