domingo, 2 de novembro de 2014

o ensaio



e então aquilo que parecia distante de se realizar toma forma.
primeiro os escritos.
depois o trauma.
depois a tentativa de cura.
o teatro me salva.
de mim e do mundo.
injusto.
a vida por vezes é assim.
e nem por isso deve-se lamentar.
a vida é bonita de se viver também.
se com ela navegamos.

depois de um sonho triste começo a ensaiar sozinha.
mas tenho comigo uma parceira, outra mulher.
uma amiga que aceitou dividir comigo essa jornada.
desde o primeiro momento.
e tantas outras mulheres (e homens também).
que se afetam pelo meu olhar e me fazem persistir.

encontros particulares e íntimos moldam o que antes era só impulso.
o cenário é a casa.
não poderia ser outro.
é a terra..
o mato.
a janela.
a cozinha.
o espelho.
o figurino é a roupa.
não poderia ser outro.
o vestido florido.
o vestido de casamento.
a mortalha de luto (que ainda não foi costurada).
os objetos são os que me rodeiam.
não poderiam ser outros.
as garrafas de cerveja que transformo em cacos.
os presentes que enterro.
a mangueira que molha as árvores.
a fala é o que sai de dentro.
não poderia ser outra.
palavras duras e doces.
lembranças boas e amargas.
vislumbres do que está por vir.

na cozinha vou preparar a comida e compartilhar com quem vier.
tragam as bebidas.

Domingo vai nascer.
aos poucos.
por hora é um pedaço que ofereço.

ps: Obrigada, Denise. Gratidão pelo encontro.
      Obrigada, Juarez. Gratidão pelo convite.





sábado, 25 de outubro de 2014

Sem fim

E quando você acha que fecha

De novo se abre a ferida
E sangra como se fosse hoje
E dói como se fosse sempre
E machuca como se fosse nova

E quando você acha que encerra
De novo se faz a página
E fere como se fosse ferro
E confunde como se fosse sonho
E ilude como se fosse mágica.

E quando você acha que acaba
De novo encontra o desejo
E queima como se fosse brasa
E arrepia como se fosse vento
E inunda como se fosse mar.

E quando você acha que sepulta  
De novo se levanta o morto
E assombra como se fosse vivo
E vaga como se fosse sombra
E paira como se fosse nuvem.

E quando você acha que acerta
De novo encontra a dúvida.
E atormenta como se fosse certa
E encara como se fosse nova
E mente como se fosse a única.

Quando você acha que chegou ao fundo
Ainda tem um palmo e meio de terra.

domingo, 19 de outubro de 2014

Noventa dias de tormenta


Foram três meses até chegar ali. Estaria feliz se não fosse náufraga. 

Lembrava-se apenas de ter sido lançada ao oceano no dia 7 de julho de 2014. Não sabia se em sonho ou delírio. De repente se viu no mar, com embarcação frágil, vela tosca e dois remos. Não sabia remar, nem velejar, muito menos entendia porque estava ali. Mas estava. Sem água doce, nem comida. Sozinha com seu medo e sua coragem. Chorava de tristeza, tinha lembranças dispersas, já não sabia de onde vinha. Vinha de um acidente? Não se lembrava de nada. E a nova lida não dava tempo de se perder em reminiscências.

Logo, ainda sem entender de todo a gravidade, com sua dureza capricorniana começou a traçar um plano. Preciso comer, preciso remar, preciso dormir, preciso chegar, preciso viver. Repetia essas palavras como um mantra. Começou a içar a vela, com muito custo, pois era pesada apesar de pequena, nunca teve muita força nos braços. Um bom vento soprava e viu isso como um sinal. Junto remava, desajeitadamente. A ação do vento e de seus braços podiam levá-la longe, pensava. Mas onde? Nem bússola ou qualquer instrumento de navegação. Apenas o sol que se punha, era seu norte. No fim do primeiro dia apagou exausta sobre o pequeno banco de madeira e dormiu, sem ver o céu de lua enorme. Acordou faminta. Procurou nos bolsos das calças, na esperança de encontrar algo. Com alegria descobriu uma bala de hortelã e um resto de biscoito mole, doce, do pavê que fizera uns dias antes. Ah! Sim! Numa festa em sua casa, com amigos, fizera um pavê, daqueles antigos, receita da avó. Agora se lembrara.

Num átimo peixes prateados saltaram pra dentro do barco, ela conseguiu pegar dois. Os japoneses comem peixe cru, lembrou-se. Com um misto de fome e nojo abriu o peixe com as mãos, arrancou as vísceras e comeu a carne, rosada e amarga. Por hoje seria só isso. Mas a sede era imensa. Bebeu água salgada. Enrolou a camisa clara em volta do rosto, para se proteger. Nuvens escuras anunciavam tempestade.  Atou-se ao barco com um cinto de pano, que tinha em volta da blusa. Mas antes procurou algum recipiente para juntar água. Achou uma lata velha, num canto, quase enferrujada.  E desceu as velas.  A chuva veio forte. Ondas varriam o barquinho, que resistia por milagre. Por sorte não durou muito e agora tinha água para beber.

Sabia que ia demorar naquele modo novo de viver. Consolou-se cantando bem alto quando a tarde caía. Assim passaram-se dias e noites e dias e mais noites. Nem sabia quantas. Quando era vencida pelo cansaço dormia exausta, sonhava. Via uma casa amarela, com árvores grandes em volta, via alguém de longe,  não identificava seu rosto. Ele arrumava coisas no quintal. Tinha uma voz mansa e dizia palavras bonitas. Logo o sol forte queimava sua pele e a luta recomeçava.

Nada de terra, nem outros barcos. Apenas aquele mar imenso, chamando para as profundezas. Talvez fosse melhor se deixar ir, como uma sereia torta e cansada, para dentro dele. Seu peito doía tanto. Era só um buraco, uma falta e um desconhecimento de tudo. Em toda sua vida nunca tinha sentido isso. Vai passar, vai passar. Mas não. Era grande e funda aquela nova sensação. O que fazia ali? Tentava se agarrar em alguma imagem, não queria ceder assim. Um vento forte encrespou o mar e uma onda partiu o mastro que caiu quase sobre ela. Sem vela, tudo ia ficar mais difícil. A cada golpe, sentia que precisava reagir. Sua garganta tinha desejos de dizer coisas. E vociferava contra tudo e todos. Quem? Depois remou com energia, sem rumo, mas avançou. Buscava terra, mas terra perto não havia.

Aprendeu a pegar peixes com uma ponta da madeira do mastro que se partira. E outras chuvas garantiram água, colhida na lata e sorvida com parcimônia. Quase se acostumara àquilo. E as noites eram esplêndidas. A natureza oprimia de tão bela. Soberana. Mais calma rezava e pedia proteção. E agradecia por estar ali, apesar de tudo. Ficava de olhos abertos deixando o vento e o acaso levar a embarcação. Dormia pouco com medo de algum peixe grande ou onda que virasse o barco. Mas sonhava. Eram sonhos confusos, com tantas imagens e rostos que mal reconhecia. Via crianças, três. Seus filhos? Via um teatro grande, luzes apagadas. Via um casal sorridente, seus pais? Um vestido branco secando ao sol. Uma senhora velhinha que a abraçava.

Depois de um longo tempo à deriva adoeceu. Teve febres e calafrios.  Dores fortes nos rins, que subia pelas costas, enjôos.  Enrolou-se no tecido grosso da vela. Desistisse? Não. Vou reagir, vou reagir. Preciso viver, preciso remar, preciso... Nem sabia mais do que precisava. Nada mais importava. E dormiu um sono profundo. Viu sua imagem como em filme. Irmã mais velha de cinco irmãos, pais poetas, infância no interior. Casou-se cedo, com um homem bom, teve três filhos, dois meninos e uma menina. Construiu casa. Fez-se artista. Era melancólica. Gostava de sol. Um dia foi morar noutra casa, sozinha. Morou em terras distantes, equatoriais. Lembrou-se de tanta luta, tanta angústia, da solidão, da esperança. Do encontro: amor-oceano. Perigoso e profundo. A casa, o mar, o banho de mangueira, a cachoeira, as promessas, o café da manhã, tapioca, cuscuz, cerveja, lua, casa, janela, cama, café, beijo, sono, corpo, música, viagem. Dúvida, medo.  Lembrou-se de cada palavra e gesto. Lembrou-se do fim. Explosão, choro, lágrima, raiva, dor, tristeza. Naufrágio. Agora entendia porque estava ali.

Acordou com um tranco forte no fundo do barco. Pensou no pior. Era um banco de areia. Desceu, trôpega. Em alguns passos, pés dentro d’água morna, estava em terra firme. Olhou mais uma vez o barco, exausto, exausta,  tão machucado quanto ela. Sentou-se na areia, chorando pegou conchas e sorriu para uma pequena estrela do mar. Sobrevivera. Longe dali avistou luzes. Vou descansar um pouco, pensou. Depois iniciaria nova etapa. 





domingo, 12 de outubro de 2014

Fragmentos de um diário (2)


E se passaram 6 anos. Reflexos perduram. As dores nos fazem olhar para trás. Repenso meus passos e desejo novos caminhos.

2008

29 de setembro, segunda

Como eu estava bonita nas fotos dos jornais antigos, quando eu era atriz, e como agora eu me sentia envelhecida, meu corpo tinha se deformado muito, relaxei demais nestes dois anos, as pernas feias, cheias de vazinhos arrebentados e muita celulite, tendência que sempre tive, desde nova.
E o pior: já não tinha mais a ilusão de fazer aqueles regimes malucos e ficar em forma. Nunca tinha sido gorda de verdade, mas sempre quis perder peso. A tendência era cada vez engordar mais e em menos tempo. Assim chegara aos 82 quilos.


8 de outubro, quarta-feira
Fiquei 3 dias sem pensar no diário.
Só escrevo quando preciso, como um remédio.
Fico pensando na minha solidão, que estou começando a gostar, mas hoje voltei a chorar no ônibus, por causa da música do Lulu Santos:

E a gente vai a luta
e conhece a dor
considerando justa
toda forma de amor.


8 de novembro, sábado
Parei de escrever por muitos dias, achei que nem voltaria mais a fazer isso.
Mas hoje, sábado baixou uma tristeza, solidão, medo, terríveis.
Acho que escrever vai me deixar melhor.
Aluguei o apartamento na ilusão de que ele ia ficar cheio de gente sempre, meus filhos, amigos, irmãos. Mas quase ninguém vem.
A solidão é grande aqui. Fico no escuro, não gosto de acender luzes.
Às vezes é boa, outras muito dolorosa. Ficar com a gente é difícil.
Um passarinho, passarinha, fez ninho na janela do banheiro. Foi a surpresa que me recebeu na volta de Rio Branco.
Ela choca os ovinhos, parece que um já nasceu, mas não consigo ver porque a janela tem um vidro opaco e ela se assusta quando subo no banquinho. É um pássaro marrom grande, sabiá? É um alento.

Domingo, 21 de dezembro
Alguém, por favor, podia (des)inventar o domingo? Detesto. Domingo, agora então sem família, só presta até a hora de começar a pensar no almoço. Depois é só tristeza e lembrança. Só fugindo para outro lugar...


domingo, 5 de outubro de 2014

Fragmentos de um diário (1)

Revejo/recorto partes de um diário de 6 anos atrás. De alguma forma muitos dos sentimentos se refletem aqui, como um espelho de cacos, que embaralha as memórias e sensações. A escrita cura. Divido para que outros possam talvez se curar.

2008
12 de setembro, sexta
Mudei-me para um apartamento em um conjunto habitacional na periferia. São muitas ruas, muitos blocos, muitas unidades, muitas pessoas, umas cinco mil. Dois quartos quadrados, sala pequena com ganchos para rede, cozinha e área de serviço juntas, com janela pequena, banheiro razoável. Tem armários em todos os lugares, está todo pintado de branco, as portas com um amarelo envelhecido, feio. Minha pequena prisão domiciliar.

13 de setembro, sábado.
A noite foi dura. Acordei assustada, com medo de tudo.  Minha asma, herança de vovó Páscoa voltou. Mudei-me com pouco menos do que o necessário e apesar dos conselhos de todos, que acharam a idéia absurda: uma cama box, comprada às pressas com a última parcela do seguro desemprego das aulas na faculdade, uma mesa emprestada, um banquinho que vai durar pouco. Minha nora me ajudou a trazer os trecos no seu fusca: roupas, sapatos, papéis, um vaporizador, um edredon velho, um vaso de violeta. Fogão e geladeira chegariam mais tarde, comprados com ajuda de mamãe. O que eu não preciso pra viver, o que eu preciso pra viver...


16 de setembro, terça
Remexer em fotos, papéis, vidros de perfume que colecionava me fez mal. Queria colocar tudo dentro de um saco, como aqueles que embrulham os cadáveres das guerras e só olhar depois que a dor passasse.
À noite, indo para o trabalho, fiquei olhando meu rosto na janela do ônibus: os óculos novos me lembravam o tempo da faculdade, mas a cara tinha marcas, as rugas na testa herdadas da vovó, o bigode chinês, os cabelos brancos que decidi não pintar, o aspecto cansado. Em quem eu tinha me transformado?

19 de setembro, sexta

Queria fazer um adesivo:
Estou me separando, não me pergunte como. Nem por que.”

21 de setembro, domingo.
Devia ser proibido trabalhar aos domingos, é dia sagrado. Mas nós artistas, engajados, sociais, conscientes e não sei mais o quê, sempre arrumamos sarna pra coçar. Fui. Saí perto do meio dia depois de comer um pedaço de pizza requentado da noite anterior. Comer sozinha é estranho. Sempre estive cercada de muitas pessoas: pais, tios, avós, primos, irmãos, filhos, amigos e o povo do teatro. Sempre andei em bandos, fui líder deles, cozinhei pra muitos, servi. E agora não tenho um gato pra compartilhar a comida. Atravessei a cidade, encontrei outro bando, falei, discuti, opinei, me senti em casa.
Mas no caminho chorei no ônibus. É só a paisagem começar a se movimentar da janelinha que ele vem. Se ao menos tivesse um lenço como meu pai tinha. Os lenços saíram de moda, o que é uma pena, serviam pra tantas coisas: limpar um banco, assoar o nariz, enxugar as lágrimas. Observo muitas pessoas chorando disfarçado na rua. E nenhuma tem um lenço, pequeno que seja, pra ajudar.


domingo, 28 de setembro de 2014

O corpo

Muita pequena abri uma mala antiga e tive a primeira crise de asma, herança da avô materna, chamada Páscoa. Desde então de tempos em tempos, quando os pulmões dão sinais de tristeza chiam. Parece que tem um gato, meu preferido entre animais, dentro do peito. Com uns três anos, via a chuva colada na janela, na casa dos avós no interior e uma pedra de granizo quebrou o vidro e cortou meu nariz. Ganhei uma pequena cicatriz, que hoje mal se vê. Lembro-me também de furúnculos, que me acometiam desde pequena. A pele vermelha e intumescida, pequeno vulcão de onde saiam secreções. Dentro, bem no centro, uma carne dura, que mamãe chamava de carnegão. Enquanto não era expulso, a custo de muita pressão, a ferida não fechava. Lembro-me também de dores constantes de garganta e de uma hepatite que me deixou 40 dias de cama. Até hoje sou fraca para beber, creio que o fígado ficou sensível demais. As provas finais do grupo escolar quase sempre fazia separado, talvez por nervoso ficava doente com a proximidade delas, apesar de ser boa aluna.
Cresci rápido. Com 13 anos já tinha a altura de hoje. Fiquei moça cedo, grandona, penúltima da fila na escola. Carregava bandeira na parada de 7 de setembro. Corpo parecido com o da minha mãe, mas seus pés são bonitos. Os meus não. Grosseiros e  grandes, pés que se afundam no chão, enraizados demais.
Sempre quis ser mais magra do que era. Minhas formas tendem ao redondo, ancas grandes. Nunca achei meu corpo bonito. Sempre briguei com ele. (Fui aprender a gostar mais de mim, por fora, muito tarde, quando alguém devolveu vida ao meu corpo cansado. Fiquei leve e linda, suave nas formas e sem vergonha nenhuma dos pequenos defeitos.).
Sempre fiz regimes malucos e muitos exercícios. Enjoava de tudo fácil. Até hoje sou assim. Só consigo fazer as coisas por uma necessidade, de dentro pra fora.  T’ai chi, hidroginástica, body balance, musculação, corrida, caminhada. O que mais gostei foi do trabalho sutil da bela Irene, cujos exercícios delicados nos fazem mudar a postura e a alma. Depois as emoções nos desorganizam. E tudo precisa recomeçar.
Antes dos trinta vieram os desejados filhos. Corpo que se expandia. Ficar grávida era um estado de plenitude e força gigante, usina de gerar. Fui feliz com aquele corpo que acolhia, quente e macio. Depois o leite sugado do peito enxugava o corpo, enquanto alimentava aquele amor sem medidas, amor-perfeito. Ficava seca, enquanto os garotos cresciam fortes. Era bom. 
À noite, deitada na cama, sentia meu corpo imenso. Como se fosse a Bárbara do Murilo Rubião. Depois uma mulher me disse que o que sentia era a percepção do períspirito. Corpo sutil em volta do outro, de carne. Mistérios que desconhecemos. Só depois, aos poucos, entendi o corpo nosso, mulher de cada dia, que abriga os menstruos, corpo aquoso, inchando e desinchando, como os ciclos lunares. O sangue espesso todo mês, as cólicas agudas. Somos, de corpo, feitas para parir.
Depois da filha, terceiro parto, veio a laqueadura das trompas, corte no umbigo. Hoje penso que foi uma pequena violência, dessas que cometemos contra ele, nosso corpo. Mas na época pareceu ser o certo.
Aos 48 começaram a secar as regras. Os ovários murcharam. Depois o sangue cessou. E veio outro ciclo. Parecia morte, mas foi vida nova. E mais livre.
Meus cabelos já foram longos, há muito tempo. Foram curtos quase sempre, como Diadorim. Hoje tentam crescer, resgato uma mulher vaidosa nos cachos. Deixo-os brancos, mechas. Quero que me respeitem por ser vivida.
Recentemente ganhei nova cicatriz na face direita. Carcinoma bacelar infiltrativo. Duas vezes retirado e ainda aponta margens exíguas, diz o laudo. Tanto sol tomado, nem me arrependo. Sempre precisei de sol. E mar.
Nos últimos meses emagreci, mas foi de emoção, do excesso ou da falta dela. Mesmo assim achei vantagem. As mulheres são loucas.


Em frente ao espelho me vejo de novo, corpo inteiro. Gosto dele, mesmo não sendo perfeito. Ele é grande, forte e me contêm. Espelho de mim: corpo-alma.

domingo, 14 de setembro de 2014

O amor do meio

Tirando as paixões juvenis que deixaram marcas profundas por serem as primeiras, a mulher vivera até hoje dois grandes amores. Em tudo diversos.

O primeiro chegou depois de relações incompletas, instáveis. Gostava das coisas bem claras. (Sua frase preferida era “não foi isso que a gente combinou...”). Queria desde cedo alguém pra dividir a vida, ter filhos, construir casa, trabalhar. E quando encontrou essa pessoa a entrega foi imediata. O namoro durou poucos meses e já estavam juntos. Lembra até hoje do seu vestido curto de noiva, sem grinalda e da escadaria imensa ao sair da Igreja pequena. E dos bombons de uva com doce de leite, que levaram para a lua de mel. A paixão em pouco tempo virou amor. Logo eram duas cabras montanhesas, subindo aquela cadeia de montanhas, fortes e serenos, duros como as rochas da escalada. Em muitos momentos admiraram a vista, respiraram e prosseguiram. “Horinhas de descuido”, de verde e água, de namoro e renovação dos votos. Acontece que muitas vezes com a cabeça baixa, não viram quando começaram a trilhar caminhos diferentes, naquela lida que exigia suor e paciência. No fim de uma tarde qualquer constataram que a distância aumentara e era impossível retornar. Cada um agora devia seguir sozinho. Mas da montanha vizinha um avistava o outro e pensava:  ele está lá. Foi um amor longo, duradouro e sólido como aquelas paredes de pedra. Deu filhos e frutos. Permaneceu um carinho profundo e uma promessa de que quando ficarem velhinhos podem viver juntos novamente.

O segundo chegou no silêncio. Na solidão de um pequeno apartamento, curtido pela tristeza e desesperança. Arrebatou com sua poesia, era o desconhecido. Contra todas as convenções. Uma paixão adolescente na madureza, risco corrido com gosto e um pouco de medo. Leve, fluido e ainda assim ardia como o fogo. Logo eram dois pássaros furando as nuvens róseas, planando sobre o mundo do pequeno cotidiano, lá embaixo. Foram também peixes, mergulhando em cachoeiras doces e mares salgados. Foram flores e estrelas. Metáforas infinitas. Celebração da vida em gestos, imagens, palavras. A paixão virou amor, se estendeu em tempo e espaço e também ergueu casa.  A casa amarela de grades azuis. Naquele santuário o amor fez promessas de eternidade e de ser sempre leal.  E veio uma paz. Nada podia contra aquele sentimento. Nada. Assim pensava(m). Esquecendo a natureza das coisas da natureza. Fogo, vento e água não se domam. Um dia, sem aviso, escorreu, voou, queimou. E assim como veio se foi. Permaneceu o silêncio, nenhuma promessa. 

Na terra desolada a pássara ferida voltou para o ninho e buscou abrigo entre os seus.

O terceiro será firme como a montanha, mas deixa passar o vento, abriga a água e sustenta  o fogo.

Quero agora um amor do meio.